terça-feira, 24 de julho de 2012

O FIM DE UM GRANDE AMOR - Run Run se fué para el norte


Antes de Violeta Parra, a produção musical visível chilena era representada principalmente pelo cantor e compositor Lucho Gatica, que cantava boleros e fazia grande sucesso popular em todo o mundo hispânico. Vivia no circuito Madrid-Mexico e raramente ia ao Chile. Suas letras falavam de amores perdidos e desilusões, numa linguagem antiga, envelhecida pelo tempo desde que esse ritmo foi desenvolvido em Cuba, lá pelos anos 1800, quando as moças colonizadoras espanholas bailavam com seus vestidos longos, com desenhos de grandes bolas coloridas, daí o nome da dança, bolero.

Violeta também falava de amores perdidos e desilusões, só que numa linguagem moderna, apropriada ao seu país, sem parecer uma "caribenha", como Gatica. Compunha em ritmo de "cueca", a música folclórica dos camponeses e índios chilenos, mesmo quando tratando de temas banais como o abandono. Contemporânea de Gabriela Mistral, era completamente diferente da poetisa chilena que ganhou o Prêmio Nobel.  Era rebelde e comunista de carteirinha, não tinha nada a ver com  a moça bem comportada e respeitosa dos valores familiares, tão à gosto dos conservadores cidadãos chilenos brancos de classe média. 

Os que acompanham a música folclórica sul americana, como eu, especialmente as canções de protesto político e comportamental, têm na chilena Violeta uma referência na luta contra a ditadura fascista de Pinochet, embora a maioria não saiba que ela morreu seis anos antes do golpe, por suicídio que cometeu em pleno teatro que mantinha junto com os filhos, anexo a um restaurante folclórico em Santiago, conhecido como La Peña de Los Parra, onde se apresentava regularmente, com grande sucesso de público e crítica. Os negócios iam bem, estava rica e na melhor fase artística.  Só não estava feliz. Vá se compreender as mulheres apaixonadas! Havia completado 50 anos de idade e tinha passado por três casamentos oficiais. Já tinha feito uma sólida carreira internacional, na poesia e no canto. Folclorista fundadora da música chilena, conquistou padrão de qualidade inigualável, gerando e educando talentos como Victor Jara, Quillapayum e Inti-Illimani, músicos que tornariam suas canções mundialmente famosas.

Estava apaixonada por um sujeito que ela chamava de Run Run... A questão é que ele tinha ido para o norte, ao deserto de Atacama e sua principal cidade, Antofagasta, dizendo-se em missão do partido. E ela se lamentando em Santiago, sem saber quando ele regressaria ... Que tristeza!  Ele nunca mais voltou.





En un carro de olvido,
antes del aclarar,
de una estación del tiempo
decidido a rodar,
Run Run se fue pa'l norte,
no sé cuándo vendrá;
vendrá para el cumpleaños
de nuestra soledad.
A los tres días carta
con letras de coral
me dice que su viaje
se alarga más y más,
se va de Antofagasta
sin dar una señal,
y cuenta una aventura
que paso a deletrear.
¡Ay, ay, ay, de mí!

Al medio de un gentío
que tuvo que afrontar,
un trasbordo por culpa
del último huracán,
en un puente quebrado
cerca de Vallenar,
con una cruz al hombro
Run Run debió cruzar.
Run Run siguió su viaje;
llegó a el Tamarugal.
Sentado en una piedra
se puso a divagar
"que sí", "que esto", "que lo otro",
"que nunca", "que además",
"que la vida es mentira",
"que la muerte es verdad".
¡Ay, ay, ay, de mí!

La cosa es que una alforja
se puso a trajinar,
sacó papel y tinta,
y un recuerdo quizás;
sin pena ni alegría,
sin gloria ni piedad,
sin rabia ni amargura,
sin hiel ni libertad,
vacía como el hueco
del mundo terrenal,
Run Run mandó su carta
por mandarla no más.
Run Run se fue pa'l norte,
yo me quedé en el sur;
al medio hay un abismo
sin música ni luz.
¡Ay, ay, ay, de mí!

El calendario afloja
por las ruedas del tren;
los números del año,
por el filo del riel.
Más vueltas dan los fierros,
más nubes en el mes,
más largos son los rieles,
más agrio es el después.
Run Run se fue pa'l norte,
¡qué le vamos a hacer!
Así es la vida entonces,
espinas de Israel;
amor crucificado,
coronas del desdén,
los clavos del martirio,
el vinagre y la hiel.
¡Ay, ay, ay, de mí! 
Em um vagão de esquecimento,
antes do amanhecer,
de uma estação do tempo
decidido a viajar,
Run Run foi para o norte,
Não sei quando voltará;
Voltará para o aniverrsário
de nossa solidão.
Aos tres dias uma carta
com letras de coral
me diz que sua viajem
se alonga mais e mais,
se vai de Antofagasta
sem dar qualquer notícia,
e conta uma aventura
que passo a soletrar,
Ai de mim!

Em meio a uma turba
Que teve que enfrentar,
Uma travessia por culpa
do último furacão,
Em uma ponte quebrada
Perto de Vallenar,
com uma cruz nos ombros
Run Run teve que cruzar.
Run Run seguiu sua viagem;
Chegou a (pampa de) Tamarugal.
Sentado em uma pedra
Se pôs a divagar
que sim, que isto e que aquilo,
que nunca, que portanto,
que a vida é mentira,
que a morte é verdade
Ai de mim!

A questão é que um alforje
começou a trotear,
 tirou papel e tinta,
E talvez uma recordação;
Sem sofrimento nem alegria,
Sem glória nem piedade,
Sem raiva nem amargura,
Sem aflição nem liberdade,
Vazia como um ôco
Fincado no meio da terra,
Run Run mandou sua carta
Apenas por mandar.
Run Run se foi para o norte,
Eu fiquei aqui no sul;
Entre nós há um abismo
Sem música nem luz.
Ai de mim!

O calendário perde importância
Conforme giram as rodas do trem;
O passar dos dias do ano,
Pelos fios de aço dos trilhos.
Mais voltas dão os ferros,
Mais nuvens no mês,
Mais longos são os trilhos,
Mais ácido fica o futuro.
Run Run se foi para o norte,
O que se vai fazer!
Então a vida é assim mesmo,
Espinhos de Israel;
Amor crucificado,
Coroas do desprezo,
Os pregos do martírio,
O vinagre e o fel.
Ai de mim!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Os Trabalhadores da Luz

Visão artística sobre a energia do sopro divino, a Mônada 

Conheço muitas pessoas que se consideram infelizes. Por que são pobres e trabalham muito para sobreviver, ou por que não têm trabalho que lhes dê a renda que precisam, ou por que foram abandonados pelo grande amor de suas vidas, ou por que perderam todo o dinheiro que tinham, ou por que perderam  uma parte da riqueza, enfim, motivos não faltam para que aleguem sua Infelicidade militante. E já amanhecem  o dia se amaldiçoando. Colocam negatividade em todos os lugares por onde passam, impregnam de pessimismo os serem com os quais convivem.  São realmente tremendamente infelizes. 

Sempre que eu encontro pessoas assim, tento dar-lhes uma perspectiva cósmica. Mostro-lhes que, diante do universo, elas próprias são tão desimportantes, que não vão fazer nenhuma diferença no contexto geral. Não vale a pena, literalmente. Quer dizer, o seu penar não tem qualquer importância diante do absoluto, diante da eternidade e diante do mistério dos espaços siderais. Faço-as ver que este corpo biológico que sofre, está longe de ser o centro do mundo, como elas se acham. Esta entidade física constituída de sangue, água, minerais, sistemas de alimentação, de circulação, de eliminação de resíduos, de procriação, etc, que é o nosso corpo humano, está muito longe de ser a principal atração da vida no planeta. A manifestação da pessoa física que habita esta terceira dimensão, em termos quânticos, está no sétimo nível da cadeia de realidades ou mundos paralelos que compõe o aqui/agora, a realidade da existência.  Existe um segundo nível energético, logo acima do corpo físico, envolvendo o indivíduo. É o corpo etérico, cuja função é alimentar o corpo físico com energia, o prana cósmico, energia universal, para manter funcionando cada órgão do corpo físico. As doenças se instalam primeiro no órgão duplicado energeticamente neste corpo etérico, de modo que seria possível curá-las antes que elas chegassem a se instalar no corpo físico. É ali que ocorrem as cirurgias espirituais, por exemplo. A terceira camada energética é o corpo astral, que guarda o projeto de vida que construímos antes de nascermos, além do histórico de tudo o que já tínhamos planejado antes, em outras vidas passadas. Se a evolução da pessoa não se completou na sua passagem pelo planeta, ela terá uma nova chance. Poderá voltar em outra vida, carregando o mesmo corpo astral, e ganhará de presente um novo corpo etérico e um corpo físico novinho. Poderá até trocar de sexo, aliás, é obrigatório que o faça a cada sete vezes que passar por este planeta. O corpo astral é eterno e seguirá com o mesmo Ser até sua iluminação final, até subir aos céus, que é o destino final de todos, nem que tenham que passar milhões de anos por aqui, em várias vidas de aperfeiçoamento. Portanto, esquece o que lhe falaram sobre condenação eterna. 



Para encurtar a história, acima dessas tres camadas inferiores, ainda existem quatro níveis de consciência superiores: a quarta camada, onde se armazenam os cinco sentidos, instintos e sub-consciente; a quinta camada, a mente espiritual, onde se armazenam os desejos e pensamentos mais sublimes e nobres, presente só num pequeno número de seres humanos;  a sexta camada, veículo da fraternidade universal e da intuição espiritual, que também ainda não está presente nos seres humanos encarnados;  e, finalmente,  a sétima camada, o corpo átmico, que corresponde à centelha divina dentro de nós, o Deus que nos habita a todos os seres, que nos liga à Mônada, ao inexplicável sopro divino, do qual não temos informação suficiente sequer para definí-lo. A energia divina simplesmente não pode ser explicada em termos inteligíveis para o nosso cérebro. Todos os emissários Dêle ou portadores de sua Palavra, não passam de meros demagogos.

Veja que o caminho que temos a percorrer não é curto. Mas, é bom saber que não estamos sozinhos. Para nos ajudar, vários seres de Luz estão a nos espreitar, do espaço cósmico. Às vezes, nos visitam pessoalmente e permanececem ao nosso lado, ajudando em momentos cruciais. Seres muito mais evoluídos, que já cumpriram seu ciclo de encarnações em alguma galáxia perdida na imensidão infinita. Alguns deles estão logo ali, numa frota intergalática chamada Ashtar, encarregada de cuidar da evolução do planeta Terra. Eles não interferem no nosso livre arbítrio, mas, estão atentos para impedir que as bobagens que fazemos interrompam a evolução cósmica, como, por exemplo, uma guerra nuclear que destruísse o planeta acidentalmente. Além dessa ajuda, de vez em quando um ser superior nasce entre nós, com a missão de fazermos dar um salto para a frente, tanto em termos tecnológicos como morais. Dois desses seres são Jesus Cristo e Buda. Uma vez por ano eles se encontram, sobre as montanhas do Himalaia, para avaliar nosso comportamento e nos abençoar com as energias que precisamos para o estágio atual de nossa estupidez espiritual, aprendizes que somos.   

Ao ler estas linhas, meu amigo Pragmático fez uma observação irônica:
--- Deu pra escrever contos de fadas?
--- Mais ou menos ...
--- Mas, olhe, até que gostei desse teu universo, heim! Eu ficaria muito contente se pudesse viver nele. Não carregaria tanto peso nos ombros. Você acha que ele existe, mesmo?
--- Não. É apenas delírio de uma mente desocupada ...



quarta-feira, 18 de julho de 2012

O FIM DE UM GRANDE AMOR (GAY) - Eu não tive tempo de dizer adeus

Originalmente a palavra inglesa "gay" significava apenas uma pessoa jovial, de bem com a vida, alegre, desencucada, sem problemas pessoais, coisas assim ...  Com o passar do tempo, ela passou a designar também os homo e bi sexuais. Segundo nos explica a enciclopédia eletrônica Wikipedia: "O termo inglês espalhou-se a outras línguas, sendo usada com muita frequência no Brasil e em Portugal. Embora, algumas vezes, gay seja usado como denominador comum entre homens e mulheres homossexuais e bissexuais, tal uso têm sido constantemente rejeitado por implicar na invisibilidade ante a lesbianidade e à bissexualidade. Da mesma forma, o senso comum algumas vezes atribui a palavra a pessoas travestis ou transexuais, atribuição esta resultante do desconhecimento da distinção entre sexualidade e gênero." 

Alguém entendeu? Nem eu.

Tenho observado algumas relações homosexuais que nada tem a ver com este presumido jogo leve e cabeça aberta. Embora também existam relações assim, abertas e divertidas, "amizades coloridas", como as chamávamos na nossa juventude (ai, ai, ai, quanto tempo atrás ... ! "), o fato é que o ciúme gay é muito mais pesado do que os heterosexuais. O final de um namoro ou casamento gay é muito mais sofrido. Imaginem, então, como dói a despedida de um casal gay masculino, quando um dos parceiros está morrendo de AIDS. Ouça a canção de Lou Reed sobre seu namorado morrendo no hospital. É real...





Deve ser bom uma pessoa ser estável e firme
Como deve ser bom nunca fugir do padrão esperado
Ser totalmente confiável e nunca desagradar a ninguém
Deve ser muito bom ser todas as coisas que você não é
Ser tudo aquilo que eu não sou

Você está num hospital e seu humor permanece sendo bom
Eu fico envergonhado pela força que me falta
Se eu estivesse no seu lugar (é tão estranho que eu não esteja)
Eu desmoronaria em um minuto e meio
Eu não tive tempo de dizer "adeus"

Deve ser bom uma pessoa ser normal e pragmática
Não variar de humor para cima e para baixo
Não importa quantas vezes tentar, nunca deixo de ser emocional
Você está morrendo e eu estou aqui, vivo
Eu não tive tempo de dizer "adeus"

Há coisas que nós dizemos conhecer
Mas, na verdade,  nunca tivemos conhecimento completo
Eu teria gostado de ignorar que você estava para morrer
Então eu não me sentiria tão estúpido e tolo
Eu não tive tempo de dizer "adeus"

Não há lógica na escolha de quem deve morrer ou viver
Se você for a fundo na questão, será considerado louco
Agora, o seu otimismo sem razão de ser, faz me pensar que você virou santo
E eu só lamento que não tenha tido a chance de dizer-lhe "adeus" 
Eu não tive tempo de dizer "adeus"

Outra canção do mesmo álbum coloca a questão de forma mais fantasiosa. Provavelmente levado pelas dor, o amante que vai sobreviver imagina uma espada pendente sobre a cabeça do companheiro, internado no hospital e aguardando um milagre para sobreviver.  






Eu vejo a espada de Dâmocles sobre sua cabeça
Eles estão tentando um novo tratamento para tirar você da cama
Mas a radiação mata tanto os maus como os bons
Não consegue diferenciar um do outro
Então, para curá-lo eles acabam por matá-lo 
A espada de Dâmocles pende sobre a sua cabeça
Eu tenho visto gente morrer aos montões
De acidentes de carro ou de drogas
Ontem à noite na 33 ª avenida eu vi um atropelamento
Se pudesse, eu escolheria não ver essas coisas
É muito difícil de suportar
Então, para curá-lo eles acabam por matá-lo 
A espada de Dâmocles pende sobre a sua cabeça
Essa mistura de morfina e dexedrine
Que utilizamos por aí
Consegue matar a dor e manter a gente na luta
Mas não consegue tirar a dor da sua alma
Este jogo da vida tem suas próprias regras
O bem nem sempre ganha
É o poder da razão pura e sem emoções
Então, para curá-lo eles acabam por matá-lo 
A espada de Dâmocles pende sobre a sua cabeça
Parece que tudo que está feito é o certo
Mas há muitas coisas que não me parecem justas
Há muitas coisas que não temos como saber
Talvez haja mais coisas entre o céu e a terra
Pode ser que haja vida em algum outro mundo 
Eu sei que você odeia esse misticismo barato
É apenas uma outra maneira de ver
A espada de Dâmocles sobre a sua cabeça


terça-feira, 17 de julho de 2012

Bob Dylan, cow boy da alma norte americana




Bob Dylan compôs vários countries em sua longa carreira. São músicas de cow-boys, que ele pesquisou intensamente durante anos. Ele foi um craque na execução do estilo Chautauquia, que significa o cantar de peregrinos que andam pelas estradas da América do Norte, compondo poemas e contando causos através da música, em longas histórias sobre acontecimentos sem importância, porém representativos da cultura caipira dos Estados Unidos. Um de seus melhores momentos foi a criação do álbum "Sangue nas trilhas".  Desse álbum, Dylan nunca permitiu o relançamento ou postagem daquelas músicas em qualquer mídia social. 

Uma canção se destacou, como se fosse um longo filme, contando uma aventura do cotidiano do "far west". Devido a sua longa duração e complexidade dramática, está praticamente esquecida da obra do cantor, sendo muito pouco referenciada, mesmo entre os especialistas. Chama-se "Lily, Rosemary and The Jack of Hearts". No baralho, Jack of Hearts é o apelido da carta Valete de Copas.


O festival de verão já tinha terminado
Os rapazes já estavam planejando o outono
O cabaré estava silencioso
Exceto por uma perfuração na parede
A placa "fechado" era exibida na porta
E a roda de apostas guardada
Qualquer um com um pouco de senso
Já teria deixado a cidade
Ele, porém, estava de pé perto da porta
Parecia-se com a figura da carta Valete de Copas

Ele se moveu atravessando a sala espelhada
"Apronte tudo para todos", ele disse
Então todos começaram a fazer
O que faziam antes
Enquanto estavam em temporada
Ele se aproximou de um estranho
E lhe perguntou com um sorriso
"Você teria a bondade de me dizer, amigo,
A que horas começa o show?"
Então ele se posicionou em um canto
Rosto para baixo, como o Valete de Copas

Nos bastidores as meninas jogavam cartas
Perto da escada, Lily tinha duas rainhas
Ela torcia por uma terceira para compor a trinca
Lá fora as ruas se enchiam de gente
A janela estava toda aberta
Uma brisa gentil soprava
Você podia senti-la, lá de dentro
Lilly apostou novamente
E puxou o Valete de Copas

Big Jim não era tolo nem inocente
Era dono da única mina de diamantes da região
Ele fez sua entrada habitual
Todo emperiquitado e bonito
Com seus guarda-costas e bengala de prata
E cada fio de cabelo no lugar
Ele bebia o que queria, sem perguntar o preço
E esbanjava seu dinheiro à vontade
Mas ele e sua  bengala de prata
Não eram páreos para o Valete de Copas

Rosemary arrumou seus cabelos
E pegou uma carona até a cidade
Ela entrou pela porta lateral
Mais parecendo uma rainha sem coroa
Ela batia seus cílios postiços
E sussurrou no ouvido de Big Gim:
"Desculpe querido, estou atrasada?"
Mas ele não pareceu ouvir
Tinha o olhar como perdido no espaço
Mirando fixamente o Valete de Copas

"Eu sei que já vi este rosto antes"
Big Jim pensava consigo mesmo 
"Talvez tenha sido no México,
ou em um retrato na prateleira de alguém"
Mas então o povo começou a bater o pé
E as luzes da casa abaixaram
E na escuridão da sala
Havia apenas Big Jim e o Valete de Copas
Encarando a borboleta da sorte, que girava
E acabava de mostrar um Jack of Hearts

Lily era bela como uma princesa
Tinha pele alva e preciosa como uma criança
Ela sempre fez o que achava que precisava fazer
Havia um certo brilho a cada vez que sorria
Ela veio de longe, de uma família destruída
Teve vários casos esquisitos
Com toda espécie de homens
Que a levaram para todos os lugares
Mas ela nunca havia encontrado ninguém
Assim parecido com  o Valete de Copas

O juiz enforcador entrou desapercebido
E estava sendo servido de vinho e janta
A perfuração na parede continuava
Mas ninguém parecia dar muita atenção
Era fato público, sabido por todos
Que Rosemary era noiva de Big Jim
E nada nem ninguém jamais interferiria
No relacionamento dela com o rei da noite
Não, ninguém nem nada interfeririam
Exceto talvez o Valete de Copas

Rosemary estava bebendo muito
E olhando seu reflexo em uma faca
Ela estava precisando de atenção
Cansada de fazer o papel de esposa de Big Jim
Ela tinha feito muitas coisas ruins
Até certa vez tentou o suicídio
Estava completamente em crise e queria fazer 
Alguma coisa boa antes de morrer
Ela estava olhando para o futuro
Cavalgando em sonhos no Valete de Copas

Lily lavou o rosto
Tirou o seu vestido e o deixou de lado
"Será que minha sorte se esgotou?"
"Bem, suponho que você deveria saber
Que acabaria algum dia."
"Cuidado para não tocar na parede
Há uma nova demão de tinta
Fico feliz em ver que continuas vivo
Você mais parece um santo."
Descendo o longo e estreito corredor
Pegadas marcadas atrás do Valete de Copas

Nos bastidores o gerente se preocupava
Andando nervoso ao redor da cadeira
"Há algo estranho acontecendo", ele diz
"Eu simplesmente posso senti-lo no ar"
E foi falar com o juiz enforcador
Mas, o juiz enforcador estava bêbado
Enquanto o ator principal da cena
Se apressava com sua roupa de monge
Não havia em lugar nenhum algum ator
Melhor do que o Valete de Copas

Os braços de Lily se fechavam em torno
Do homem que ela tanto tinha gostado 
Ela se esqueceu completamente do marido
Já não mais o suportava 
"Sinto tanta falta de um homem como você !" ela disse
E o Valete de Copas viu que ela estava sendo sincera
Mas, além da porta
Ele sentiu o ciúme e o medo do outro
Apenas mais uma noite
Na vida do Valete de Copas

Ninguém sabe como foram as circunstâncias
Pois, como dizem, tudo aconteceu bem rápido
A porta para o vestiário abriu-se repentinamente
E um revólver frio foi engatilhado
Big Jim estava ali, de pé 
Não se pode dizer que houve surpresa
Rosemary estava ao seu lado
Aparentando firmeza no seu olhar
Sim, ela estava ao lado de Big Jim
Mas seu olhar procurava o do Valete de Copas

Duas portas depois
Os rapazes finalmente passaram pela parede
E limparam o cofre do banco
Dizem que levaram um bom bocado
Na escuridão ao lado do rio
Eles aguardavam no terreno
Por mais um membro da gang
Que tinha negócios a tratar na cidade
De modo que eles não podiam ir além
Sem o Valete de Copas

No dia seguinte era dia de enforcamento
O céu estava nublado e negro
Big Jim foi estendido e encoberto
Morto por uma facada nas costas
E Rosemary na forca
Ela sequer piscou
O juiz enforcador estava sóbrio
Ele não tocou em uma gota de álcool
A única pessoa faltando na cena
Era o Valete de Copas

O cabaré estava vazio agora
Uma placa dizia, "Fechado para reparos"
Lily já havia tirado
Toda a tinta de seu cabelo
Ela estava pensando em seu pai
Que ela muito raramente tinha visto
Pensando também em Rosemary
E refletindo sobre a lei dos homens
Mas, principalmente,
Ela estava pensando no Valete de Copas

Memórias na tarde cinzenta e fria

Meu amigo Joel, do Campeche, disse à pouco que dias assim como hoje, frio, cinzento e chuvoso,  só servem para cozinhar. Ou beber. Como não bebo em dias de semana e já estou gordo o suficiente para manter-me longe do fogão, escolhi passar o tempo escrevendo coisas sobre o arco da velha. Já me cansei de postar mensagens nas redes sociais, então, passo a relatar certas memórias, coisas de velho, que talvez possam ser interessantes, principalmente para a galera jovem, que não sabe nada do passado recente, por que o nosso país não tem mesmo memória. Propositalmente, aliás, para continuar tudo como sempre foi, apesar das aparentes mudanças.





Com a aprovação da Lei de Anistia, em 1979, a ditadura deixava claro que seus dias estavam contados. Apesar da resistência de alguns gorilas, o politburo comandado por generais mais estudados e mais espertos, achou por bem programar a transição, tratando de garantir que os seus seriam preservados de futuros julgamentos da história, razão pela qual o Brasil é o único país latino americano onde os torturadores estão protegidos pelas leis.  Não apenas os criminosos de guerra, mas, uma série infindável de bandidos, principalmente políticos, também estão seguros por leis inexequíveis de uma justiça hipócrita, mas, deixa pra lá, este não é o foco desta crônica.

Desde que vi a ditadura por dentro, de dentro do quartel da Polícia do Exército, eu morria de medo, mas, considerava minha obrigação fazer alguma coisa para mudar aquele estado de coisas. Comecei a colaborar com o MDB, onde estavam todos os grupos de esquerda. Até que o PT foi fundado, em 1980. Era odiado tanto pela esquerda como pela direita. Pela direita, por razões naturais, já que éramos todos socialistas. Pela esquerda por uma razão muito simples: reserva de mercado. Tanto os soviéticos (PCB) quanto os stanilistas (PCdoB, MR8), consideravam-se portadores da boa nova, a vanguarda do proletariado, que estava destinada a comandar a revolução socialista, que viria no seu tempo certo, como disseram Marx e Lenine. Enquanto esperavam o tempo certo, aproveitavam festejando benesses com a burguesia nacional, que comandava em parte o MDB.  

Seu ódio pelo PT aumentava na proporção em que as forças progressistas da igreja católica ganhavam peso, com suas organizações de base, tipo CIMI, Pastoral Operária, etc. Por outro lado, também não podiam admitir a nossa convivência fraternal com os grupos trotskistas, cujo inspirador fora assassinado no México, a mando de Stálin, e prometiam vingança. Além do mais, todos denunciávamos o caráter reformista da esquerda do MDB e suas alianças espúrias com o empresariado. Ora, vejam só como as coisas mudam. Para permanecerem iguais ao passado.

Até que em 1980 a burguesia promoveu um grande encontro, com grande estardalhaço na mídia, ao qual chamaram CONCLAP, Conferência Nacional das Classes Produtoras, querendo dizer, os donos dos meios de produção. Imediatamente o PT começou a pregar uma conferência nossa, a da Classe Trabalhadora. Naquele tempo, as reuniões políticas ainda eram reguladas pela polícia federal, a quem competia autorizar ou não. É, crianças, foi assim que os militares controlaram a transição, para não lhes fugir do campo de alcance. "Damos os anéis, sim, mas vamos preservar pelo menos os dedos", pareciam dizer aos ventos das mudanças que sopravam sobre o país.

O objetivo nesta conferência, ignorada pela Rede Bobo e todas as suas comparsas,   era lançar a Central Única dos Trabalhadores - CUT. Todo o mundo político de oposição compareceu à tal conferência, realizada em Praia Grande, litoral paulista, no inverno de 1981. Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Teotônio Vilela, Miguel Arraes, José Richa, inclusive os soviéticos e os stanilistas, cujo propósito era desestabilizar e impedir a fundação da CUT. Eles nos chamavam abertamente de traidores, acusavam-nos de termos nascido nos laboratórios do General Golberi, de estarmos a serviço do Vaticano, etc e tal. E suas práticas vândalas surtiram efeito. A CUT só foi ser fundada em 1983, apenas com sindicalistas do PT. A adesão dos stanilistas do PCdoB só se deu mediante altas negociações de vantagens, quando Lula já estava se encaminhando para sua carreira de sucesso, pois, até então, era visto como um bode barbudo, a quem Brizola finalmente disse que "teriam que engolir", no segundo turno da eleição presidencial de 1989, olha quanto tempo depois!  

Havia 6 mil delegados nesta conferência, representando todos os sindicatos brasileiros, reconhecidos ou não. Eu, por exemplo, fui representando a Associação dos Profissionais em Processamento de Dados, sem qualquer reconhecimento oficial. Imagine a zona que eram as plenárias. João Amazonas era vaiado e impedido de falar, por militantes soviéticos, enquanto Luis Carlos Prestes não conseguia concluir seu discurso, ao som de "traidor, traidor", gritado pelos stanilistas. Lula, então, passava o maior sufoco, para se livrar das cobranças de ter criado um novo partido. Em dado momento, estando Lula discursando, um importante sindicalista soviético pediu aparte e sentou bucha: 

--- "Lula, por que você foi criar um novo partido dos trabalhadores, se os trabalhadores brasileiros já têm o seu partido desde 1929" ? 

--- "Por que quando eu quis ter um filho, eu fiz o filho. Não pedi para ninguém fazer".

Ele sempre foi meio tanso e grosso assim. Não me causa espanto que tenha sido ludibriado pelo Maluf.