terça-feira, 28 de agosto de 2012

Música Medieval Brasileira: Na quadrada das águas perdidas


Existe um Brasil que pouca gente conhece. Aliás, existem vários. Nos cafundós da Amazônia, por exemplo, há lugares completamente ignorados pela consciência nacional. No interior do Maranhão, do Pará, do Piauí, do Tocantins, vixe maria!... há muito por descobrir. Até mesmo no sul maravilha. Quem conhece a Colônia Cecília, que foi uma experiência anarquista fracassada no século 19, em pleno estado do Paraná? Alguém já foi ver o festival de Chamamé de São Luiz Gonzaga, na região Missioneira gaúcha? Os maiores cantadores de Corrientes, Argentina, a capital do chamamé,  já foram se apresentar ali. O povo simples sequer sabe o que aconteceu ali entre 1690 e 1750. Os gaúchos desavisados acham que Sepé Tiarajú era o Negrinho do Pastoreiro. 

Pois, então. Nossa ignorância é grande. Apesar disso, nosso povo é criativo, solidário, alegre e sensível.






O que eu vou falar agora é algo ainda mais desconhecido. Passa-se numa pequena comunidade rural, no interior do município baiano de Vitória da Conquista. É um incrível núcleo protestante batista, encravado na católica e apostólica Bahia, onde está o cardeal primaz do Brasil, cargo no momento ocupado orgulhosamente pelo nosso irmão e bispo nascido aqui em Brusque, que foi arcebispo de Florianópolis, e nos levou a cantar em vários templos católicos da Europa, no ano de 2008. 

Pois bem, naqueles cantos da Serra da Carantonha, de onde desaba o Rio Gavião, antes de traçar suas corredeiras pela planície que contorna a cidade de Vitória da Conquista, justamente ali, está um dos expoentes culturais do Brasil. A casa de espetáculos, centro cultural, antropológico e caboclo, chamada Casa dos Carneiros. Não sei o por que do nome, já que seu proprietário não se trata de nenhum "carneiro". Ao contrário, é um lobo lutador pela cultura sertaneja brasileira. 

Este herói pátrio estudou arquitetura em Salvador. Mas, sua verdadeira missão era cantar sua terra, e assim o fez. Ao invés de seguir carreira projetando prédios e casas para a pequena burguesia, Elomar voltou à sua terra e fundou aquela casa cultural. Sabendo que música não dá sustento a ninguém no Brasil, principalmente se for de origem profunda das raízes da alma sertaneja, Elomar cria bodes. Isso mesmo, bodes. Pensando melhor, acho que descobri a razão do nome "casa dos carneiros". Não é um tipo de bode? Elomar vende os bodes/carneiros para manter a propriedade. Eu estive lá e vi os bodes, criados ao solto, inclusive invadindo perigosamente a estrada de terra. Ele não está nem aí!




Uma ocasião, centenas de anos atrás, Elomar foi fazer um show em Curitiba. Estávamos pelos momentos das manifestações de primeiro de maio, atos políticos que os milicos detestavam, e para tergiversar,  promoviam uma festa grande no campo do Ferroviário, atual Paraná Clube,  para onde ia toda a pelegada. Mesmo assim, nós, cinquenta gatos pingados, fazíamos nossa manifestação obrigatória. Naquele ano, resolvemos fazê-la em plena cidade industrial de Curitiba, um atrevimento muito perigoso. Por isso mesmo, contávamos com algumas proteções, tipo assim alguns artistas famosos, contra os quais a polícia iria pensar duas vezes antes de baixar o pau. Por isso, eu e mais alguns ingênuos fomos ao hotel do Elomar convidá-lo para o evento.     

--- Meus amigos, vocês me desculpem, mas eu não sou desse mundo, não!  Minha vida é completamente distante dessas coisas terrenas. Eu vivo num mundo à parte, compreende? Não tem sentido a minha participação nesse evento que vocês querem promover, esse fogo de dragão que vocês querem mandar contra um dragão maior. Isso não pode dar boa coisa. Desculpem, mas, eu não posso aceitar o vosso honroso convite.

Jovens inexperientes da vida, que éramos, saímos dali decepcionados. "É apenas um cagão", dizia um. "Mais que isso, covarde", complementava a outra gostosinha, de umbiguinho de fora, ai, ai, ai! E eu concordava literalmente com eles. Só hoje, tanto tempo depois, é que compreendo o que é "ser de outro mundo"




   


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Que saudade do bar do chico





Você sai da sede de Furnas Centrais Elétricas às 18:00 horas, já bastante alquebrado pela longa jornada iniciada por volta das oito da manhã, e depara-se com o primeiro impacto: fora do ar condicionado você é um ser em absoluto processo de extinção, tentando desesperadamente sobreviver nos 37 graus do “inverno” do Rio de Janeiro e, de bom grado, trocaria sua “polpuda” diária por um saco de gelo. As ruas de Botafogo estão abarrotadas de apressados cidadãos de classes médias, outrora tão tranquilos, apelidados no Brasil afora de “malandros”, neste final de tarde loucos pra pegar as suas vans suicidas, ônibus idem, trens, sei-lá-mais-o-quê pra ir não-sei-pra-onde. Em meio ao “calor humano” das encardidas e sujas ruas de Botafogo, você quer chegar logo em Copacabana, para um ou vários chopps que façam esquecer o trabalho de sondar “processos de negócios”, para encontrar ou diagnosticar a falta de misteriosos "Controles Sistêmicos", que “mitigam” ameaçadores "Riscos". Isto quando não tem o azar de identificar de cara um “Gap", direto no estômago, como convém a um bom "gap", e que te leva diretamente ao nocaute. De fato, convém esquecer destas coisas por algum tempo.  A consultoria norte americana amanhã cuidará deles.




Agora, neste barulhento boteco da Siqueira Campos com Barata Ribeiro, você está a duas quadras do seu hotel e o chopp geladíssimo, à sua frente, lhe faz lembrar de um mergulho nas ondas do Campeche, numa luminosa manhã domingueira de maio. 

Aí, você diz para o bolinho de bacalhau: "Que saudade do Bar do Chico !".

O Bar do Chico era mais que isso. Um ponto de encontro e apoio para a comunidade. Foi demolido pela prefeita Ângela Amim, sob o argumento de que estava em área de preservação.   O "Seu Chico" e seus familiares tinham ali um barraco de pesca há mais de um século. Enquanto isso, o "Costão do Santinho" invade a praia e o costão que lhe dá o nome, e ainda recebe medalha de bom cidadão, compra licenças ambientais para invadir outras dunas e recebe incentivo FISCAL do estado e do município. Seu proprietário é um ex diretor da Eletrosul, no tempo das vacas gordas militares. Ahí tem!!!


sábado, 25 de agosto de 2012

Medalhas Olímpicas, para que?

Uma nação é feita de vários fatores e contingências. Uma é o território, que, no caso brasileiro, é amplo e diversificado, graças aos portugueses que o preservou integral em sua diversidade, ao contrário do império concorrente, o espanhol.  Outro ponto importante para um país é a língua. No Brasil, felizmente, não temos centenas de dialetos, como ocorre na África e até em países europeus, como a Itália e a Espanha. As línguas indígenas, que tínhamos até 1750, foi devidamente anulada a partir do Marquês de Pombal, que proibiu o seu uso para fins comerciais e civilizatórios. O que falta, então, para sermos uma grande nação? Dignidade e competitividade! 

Nas últimas Olimpíadas vimos o sucesso espetacular de países como Coréia e China, que à trinta anos não eram nada, hoje destronando os imperialistas ingleses, espanhóis e até norte americanos. Será que o povo brasileiro, essa nação com duzentas milhões de pessoas, não consegue estar pelo menos entre os dez países mais bem sucedidos nas Olimpíadas? O que isso significa?




Há uma campanha ideológica em curso, promovida pelas mídias do poder estabelecido, principalmente pelo pseudo Partido Comunista do Brasil, detentor dos cargos e verbas do esporte, questionando se valeria a pena a um país tão pobre como o Brasil, investir na formação de atletas, visando obter projeção internacional na conquista de medalhas olímpicas. Esse mote se deve ao novo fracasso da nação, em termos de competitividade esportiva na última edição do evento, em Londres, inclusive no esporte favorito do povão, o futebol, que amarelou de novo na final.

Pois bem, vamos por partes, como diria o popular Jack, o estripador. Em primeiro lugar, é preciso considerar que os países que obtiveram progressos impressionantes, melhorando em até mil por cento suas performances em menos de trinta anos, como Cuba, Coréia e China, não investiram na formação de atletas. Ao contrário, eles investiram na EDUCAÇÃO, processo ao qual incluíram a educação esportiva, ao natural, deixando com que a juventude praticasse o melhor em termos de educação física, propiciando quadras adequadas, pistas, ginásios, equipamentos, e tudo o mais que leva o iniciante a desenvolver-se até o nível de excelência. Eu visitei Cuba e vi quadras de atletismo, de basquete, de boxe, de futebol americano e etc, por toda parte. O governo cubano não elegeu apenas um programa de seleção dos melhores atletas. Isso foi apenas consequência de seu programa educacional público, onde os talentos haveriam de brotar espontaneamente, graças à intensa prática esportiva patrocinada pelo estado. Imagino que essa também tenha sido a realidade de países que avançaram muito, tipo Coréia e China, contra a nossa condição, que regredimos de uma situação que já não era nem perto da razoável. Por que isso acontece?




Vocês se lembram da demissão do antigo ministro dos esportes? Existiam milhares de ONGs por detrás do Ministério, recebendo dinheiro direto do Tesouro Nacional, em prestações de contas mais do que fajutas, atuando como laranjas do verdadeiro dono do pedaço, o comitê central do Partido Comunista do Brasil.  Este, ao se defender, argumentou que aquilo era coisa séria, a serviço do esporte brasileiro e da inclusão social de populações que necessitavam ajuda esportiva, e por aí vai. 

Todos os militantes petistas corporativos e todos os quadros do PCdoB repetiam a mesma estratégia, num arranjo papagaio que eles conhecem bem,assim como repetem hoje que o Mensalão foi apenas caixa dois para campanha eleitoral.  Lembro que a atual candidata a prefeita de Florianópolis, apoiada também pelo PT e uma plêiade de partidos de aluguel, usava a tribuna da Assembléia Legislativa para defender o burocrata de seu grupo político. Chegou a insinuar que era perseguido pela mídia, que os acusadores eram racistas, etc. Quando fecharam o acordo de que a boquinha continuaria com a quadrilha, digo, com a mesma turma, queimaram rapidinho o neguinho e o esconderam nalgum cargo secundário da burocracia do governo federal.  Me engana, que eu gosto! Pois bem, retornando à nossa pergunta central. A quem interessam medalhas olímpicas? 

E eu arrisco uma resposta: A todos os povos que conseguiram se organizar de modo competente, socialmente justo, ou no caminho da justiça, e que demonstram preocupação com sua juventude e, por isso,  investem no seu futuro.  Bem diferente da gestão do PCdoB em nosso esporte. O atual governador do Distrito Federal, quando era Ministro do Esporte, na gestão Lula, território então já pertencente aos pseudo comunistas do Brasil, este cidadão ficou hospedado num transatlântico na costa da Grécia durante uma Olimpíada (onde também estava a família real inglesa), enquanto nossos atletas estavam hospedados na Vila Olímpica, não tem?  Dá uma medalha pra ele. A da "cara de pau".




  

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O amor é velho, velho, velho, ...





O amor é o tema mais apreciado pelo público leitor, televisor e radio ouvinte. Por isso faz tanto sucesso, seja na voz do breganejo Daniel ou do concretista Caetano Veloso. Um famoso cantor baiano estava por desistir da carreira, quando nem sua própria banda compareceu a uma apresentação marcada para um clube na periferia de São Paulo. Ele havia composto coisas maravilhosas, como a canção "São Paulo, meu amor" e "2001", com as quais vencera dois importantes festivais na televisão, e que tinham feito muito sucesso nos anos 60, mas, agora, no entrante 1990, estava tão duro e ignorado como um sabugo de milho. Pensava voltar para sua pequena Irará e retornar a plantar feijão...!

Foi nessa depressão, que ele mesmo confessou que não conseguia sequer levantar-se da cama. Foi quando o universo considerou que era ainda importante sua atuação. Inacreditavelmente, David Byrni, o líder do grupo Talking Heads ouviu um disco de Tom Zé, em Londres. Ficou tão impressionado que veio ao Brasil e, por sua própria conta produziu o disco "The Hips of Tradiction". Sucesso mundial que fez Tom Zé desistir da desistência.

Tom Zé raramente aparece na TV ou toca no rádio. Todo o sistema de comunicação, a serviço da mediocridade, o teme e não lhe dá espaço, por que ele não tem papas na língua. Presenciei dois episódios reveladores desta verdade. Em 2004 ele veio a Floripa, patrocinado pela Eletrosul que recém havia se transformado em petista, e que tinha um gerente de comunicação bem esperto e o levou ao palco do CIC. Ao abrir o espetáculo, este gerente fez a apologia do artista e, para aproveitar, agradeceu a presença e o apoio de dois candidatos a vereador, um que era da preferência do presidente da Eletrosul, outro que era da preferência do grupo político do referido gerente. Graças a deus, nenhum deles foi eleito. Aconteceu que no meio do show, Tom Zé faz um discurso contra o Bush e, no meio, enfia uma provocação a seus patrocinadores. "Pediram que eu elogiasse os dois candidatos que já foram citados aqui. Isso eu não faço, não! Além do mais, ainda estão cobrando vinte contos cada ingresso para este show. Devia ser de graça, já que estão usando verbas públicas de patrocínio cultural". 

Noutra ocasião, ele foi abrir a semana do calouro da UFPR, em Curitiba. Seu cachê era mínimo, ficou hospedado na casa do estudante universitário (CEU) e viajou de ônibus. Numa palestra para os calouros, saiu-se com essa: "Vocês bem que podiam arrumar alguma festa de milionário, pra eu ganhar um dinheirinho extra. Vou lá, faço papel de palhaço, como de graça e divirto os ricaços, além de me divertir também. Heim? O que vocês acham?".







El dia en que me quieras

Leminski era de pouca prosa. As que escreveu ficaram todas na sua obra máxima, CATATAU, cuja última edição traz a seguinte apresentação:  "O Catatau (1975) de Paulo Leminski é umas das obras-primas da literatura brasileira de invenção do século 20. Escrito durante quase uma década, esse “romance-ideia”, como o denominou o autor, é um monólogo onírico de René Descartes em visita a Pernambuco no período holandês. Diante do absurdo da natureza dos trópicos e dos costumes dos indígenas, o filósofo vê sua razão naufragar: “Duvido se existo, quem sou eu, se esse tamanduá existe?”, pergunta. Num texto lúdico, parodiando as narrativas dos viajantes e empregando recursos do Concretismo e do Tropicalismo, Leminski cria uma fábula inovadora e radical, firmando-se como um dos grandes explicadores do Brasil". 

Nos poucos contos que escreveu, percebe-se nítidamente a influência de Dalton Trevisan, o maior contista brasileiro vivo. Pois, o Paraná ignora ambos. É uma pena que todo artista paranaense, para vencer na vida, tenha que ir parar em São Paulo. 

Certa vez, entrei numa livraria da Praça Osório, ao lado do Bar Stuart, ambos centenários. Percorri as prateleiras, em busca de uma seção de autores paranaenses. Não tinha. Então, dirigi-me à mocinha que atendia os clientes: "Você tem alguma coisa do Dalton Trevisan?"

--- Quem?
--- Dalton Trevisan, o "vampiro de curitiba".
--- Credooo, moçoooo, Curitiba não tem nenhum vampiroooo.   







from Paulo Leminski,  In “Gozo fabuloso”

"Entre os Krause e os Gouveia, as diferenças começaram quando o mais jovem dos Krause (ou foi dos Gouveia?) comprou um aparelho de som.
Desse dia em diante, os Gouveia (ou eram os Krause?) não souberam mais o que era sossego.
Nessa época,  minha avó contava, Curitiba já era famosa pela escuridão das suas noites e produzia o melhor silêncio do Brasil. Um pai de família passava anos sem dizer coisa alguma, e ninguém estranhava. Havia professores, muitos deles célebres, que davam, em silêncio, aulas de francês, de latim, de alemão, de polonês, de italiano, de hebraico, de árabe. E, em silêncio, educaram gerações.
Não era de admirar que o aparelho de som comprado pelo jovem Gouveia (ou era Krause?) fosse execrado como uma praga que se abatia sobre aquela rua Duque de Caxias, até então tranqüila como um assobio de passarinho distraído.
- Quando a cidade era mais calma.
- O bairro não é mais de respeito.
- Caso de policia.
Por cima da cerca, fazendo sabão de potassa, Krauses, Gouveias e vizinhas.
Quando o luxuriante chuchuzeiro dos Krause (ou era o dos Gouveia?) começou a secar, alguém, por acaso, associou o evento com as valsas e tangos que explodiram na casa vizinha. Um mês depois de muito som, o chuchuzeiro estava completamente seco.
Uma semana depois, morria a bisavó dos Gouveia (ou não?), uma senhora quase centenária, dura como couro e surda como uma porta. Seria um absurdo imaginar que a velha tinha morrido por causa do som. E foi o que eles fizeram.
A gravidade da situação exigia uma medida enérgica.
Os Krause (ou os Gouveia?) se reuniram em assembléia familiar, só os machos de mais de quinze anos.
- Isto não pode continuar.
- Procurar as autoridades.
- Invadir e quebrar tudo.
- Poupar as mulheres e crianças.
- Incendiar o casarão.
A mais velha voz:
- Nossa família passou despercebida da penúria para a abundância e agora vocês querem estragar tudo com um escândalo que vai se ouvir léguas daqui, e vai durar mil anos?
Olhou a descendência, e sentenciou:
- Vamos combater com as mesmas armas.
Foi assim que o jovem Krause (quem sabe Gouveia) pegou o trem e desceu a serra em direção a Paranaguá, para comprar um aparelho de som.


2
Mas nem todos os Gouveia (ou eram os Krause?) detestavam o som do vizinho com ódio tão implacável.
A filha mais velha dos Krause, por exemplo, costumava ficar olhando a lua, quando o som começava. Mesmo que não tivesse lua. A mãe percebeu logo.
- Nem pensar.
Mas ela pensava. Como é que seria uma pessoa que ouvia aquelas coisas, àquelas horas, naquela altura? Como é que ele seria?
Talvez fosse baixinho, e por isso ouvia o som tão alto, um baixinho bonitinho, como um filho querido. Quem sabe fosse alto, por isso deixava o som naquela altura. Só sei que não podia ser uma pessoa comum aquele que ouvia 
el dia en que me quieras
como se fosse o dono da rua, o rei da vida e senhor do mundo.
- Essa gente não tem educação.
Como seria? Louro, alto, baixo, moreno, esbelto, gordinho, forte, frágil?
- Espere só o seu irmão voltar.


3
Em Paranaguá, o irmão mais velho ia na importadora, comprava a máquina e embarcava serra acima, de volta para Curitiba.
- Eles estão com os dias contados.
- Dizem que é agulha inglesa, o som cobre uma quadra.
- Isso não pode continuar
- Como é que ele será?
- Isso não pode continuar.
- El dia en que me quieras.
- A gente não devia ter vindo.
- Bem que a avó avisou.
- Combater com as mesmas armas.
- Uma loucura a gente se encontrar assim.
- No trem das sete.
- Alguém pode ver a gente."







sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Disparada e Poeira Vermelha





Ontem de tarde tive a enorme satisfação de encontrar o engenheiro Rocha. Ele foi meu colega de trabalho e juntos estivemos em vários comitês de planejamento estratégico, além de atuarmos como treinadores em projetos de controle da qualidade do serviço na Eletrosul. Ele estava saindo de uma ala do prédio onde funcionam  várias empresas encarregadas da construção de linhas de transmissão de energia elétrica. São parcerias público-privadas, em cujo mérito não há necessidade de entrar neste momento. No entanto, o pessoal que trabalha nessas empresas são aposentados da própria Eletrosul, a imensa maioria ligada politicamente com a direção. São pessoas que militaram em greves audaciosas no passado, algumas até em greves de fome. Eles têm todo o direito de continuarem trabalhando, em busca de uma segunda ou terceira remuneração. Só não aceito que o façam à custo de suas militâncias partidárias, tirando a oportunidade de tanta gente que anseia por um emprego... É a velha prática política do "é dando que se recebe".  Preocupado justamente com isso, eu pergunto ao meu amigo Rocha: 

--- Você está trabalhando nas empresas de construção de linhas?
--- Não, amigo. Quando me aposentei, eu prometi nunca tirar uma vaga de alguém.
--- Parabéns! Esta postura ética não se encontra à venda no super mercado. 


Eu também acho que, assim como eu, não é proibido ao aposentado continuar em atividade, desde que corra os riscos de empreender, sem as garantias de um emprego público. Infelizmente não é essa a mentalidade dos oportunistas, que sempre querem levar vantagem em tudo. Essas questões me remetem à minha própria história profissional. Fui demitido da companhia de informática do estado do Paraná,  por que liderei o movimento para fundar um sindicato da categoria, na década de setenta. Hoje o sindicato está nas mãos da esquerda mais ortodoxa e nossos antigos companheiros de luta ocupam cargos de confiança em grandes empresas públicas, como o SERPRO federal e as estaduais dos governos petistas. 

Eu poderia ter chegado bem mais longe, naquilo que se convenciona chamar de "carreira". Mas, não consegui me adaptar aos inúmeros regimes administrativos pelos quais passei. Nunca fui gerente, por exemplo, que é o cargo mais rentável nas estruturas organizacionais. Sempre que estava na liderança de algum grupo de trabalho, primeiro estágio da carreira gerencial, era dispensado por alguma incompatibilidade com os superiores. Certa vez, um grande amigo pessoal estava na gerência do departamento de informática da Eletrosul, quando sobreveio o governo Collor, querendo acabar com as estatais. Nosso sindicato lutava contra isso, orientado que era pelo PT da época. Eles aproveitavam o intervalo do café, 15 minutos, para fazer manifestações políticas na porta da empresa. Numa reunião gerencial, o meu amigo coloca a necessidade de alterar o sistema de frequência, para não mais considerar o intervalo de 15 minutos, de modo a impedir a presença dos empregados em tais manifestações. 

--- Certamente você disse ao presidente que isso não seria possível.
--- Não, Laércio, não disse. Até por que ele poderia contra argumentar "quem dá as ordens aqui sou eu".
--- Neste caso, você deveria entregar-lhe imediatamente o cargo de gerente, ora bolas.  Uma intromissão política deplorável em nossa equipe técnica não poderia ser admitida. Além do mais, é ilegal. O intervalo para café está na CLT. 
--- Chega de provocação Laércio, eu entrego o cargo a você, agora e diante desses seus colegas. 

Colocaram outro coordenador no meu lugar, claro, e a alteração foi feita no sistema. Acabaram-se as manifestações instantâneas anti-Collor. Depois, este mesmo gerente vestiu a camiseta preta dos "cara pintadas" à favor do impeachment de Collor de Mello. Isso sim, é uma atitude politicamente conveniente. Não a minha, de negar tudo que seja autoritário. Por isso, minha aposentadoria não é das melhores. No entanto, é suficiente para viver.   Quando viajo, vou de mochileiro. Não pago táxi nem fico em hotéis caros. Namoro com também mochileiras, que, além de mais alegres e divertidas, são mais amorosas e não ficam andando por shopping centers, hábito que detesto. O essencial da vida é estar bem consigo mesmo, sem fazer juízo de valores morais, porém, atentos para não quebrar as próprias crenças. Nisso consiste a felicidade. Destruir o ego e as ambições. Pena que só fui entender isso agora, na velhice. Se tivesse sabido antes, teria sido mais feliz e convivido melhor com minhas atitudes "radicais".






   

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Hai Kai





Vocês certamente conhecem, ou pelo menos já ouviram falar, da tradição japonesa de fazer poemas em tres versos curtos e carregados de profunda reflexão. São os Hai-Kais, a poesia dos samurais japoneses, que viviam para as grandes aventuras, quando não estavam guerreando em nome de sua tribo. Nos tempos de paz, viajavam pelo Japão inteiro, indo a lugares onde o japonês comum, trabalhador e chefe de família, nunca pensaria alcançar. Os filmes de Akira Kurosawa estão cheios desses audaciosos guerreiros. Eis um belo hai-kai feito pelo samurai Matsuo Bashô, por volta de 1600.

Eu vou
   Você fica
       Dois outonos”

Aqui fica clara a dor e a tristeza do guerreiro ao ter que se despedir de um grande amor, a fim de seguir sua sina de caminhador errante, em nome do chefe de seu clã, o mesmo que patrocina sua vida e suas aventuras. Seria fácil desistir e simplesmente ficar junto da amada, constituir um lar, gerar filhos, consolidar uma família, enfim,  mandar sua missão para a casa do baralho. Mas, isso não lhe é possível. Ele foi programado desde tenra idade para ser guerreiro. Até suas orelhas foram cortadas e condicionadas a serem completamente diferentes dos homens comuns, para que sua condição de samurai seja logo reconhecida. Assim, o cidadão mediano já saberá que não deve afrontá-lo ou entrar em confronto com esse verdadeiro sacerdote da guerra, treinado para a luta desde que nasceu.  A liberdade de seguir a trilha que escolheu acabou virando sua prisão, pois não pode simplesmente não ir. É mandatória a sua sina de perambular. Quantos amores iguais já perdeu na vida? O que resta dos sonhos de glória e felicidade, se ele não pode sequer ter uma companheira para amar? Sem dúvida, seu futuro será a velhice solitária e possivelmente pobre, assim que suas forças já não servirem ao chefão. Já não lhe restarão admiradoras que por ele se apaixonem. Mesmo assim, seguirá lutando vida afora, mesmo na solidão da velhice. Sua sina de guerreiro é interminável.

E tudo isso em apenas seis palavras curtas. A essência do hai kai são tres versos que sintetizam uma verdade profunda, de cunho pessoal ou filosófico. O estilo está espalhado pelo mundo inteiro. Antigamente as regras eram muito severas, mas, hoje já não se respeita a formatação usada nos tempos dos samurais, até por que eles não existem mais, a não ser como rebeldes sem causa, que não encontram seu caminho no mundo e vivem galdereando pelas planícies ressequidas de suas vidas sem prumo.  Paulo Leminski foi um desses, embora tenha nascido filho de polacos e vivido toda sua vida na polaca Curitiba.

"Chutes de poeta
   não levam perigo
      à meta"

Muitos outros poetas continuam fazendo Hai Kais no Brasil, sem serem necessariamente rebeldes ou perdidos no mundo. Clarice Linspector e Millor Fernandes fizeram haikais, só para citar dois  grandes escritores do passado.  A maior concentração de poetas de hai kais está nas comunidades de forte influência japonesa, tais como as do norte do Paraná e do bairro da Liberdade, em São Paulo. Veja só este, feito por um escritor de Londrina :

"Engraçada a vida
   quanto mais carma
      mais cumprida"

Se entendermos "carma" como o jeitão dos "pé vermeio" londrinenses de falar a palavra "calma", poderíamos entender que quanto mais calma, ou seja, quanto mais zen se leva a vida, mais comprida, ou mais prolongada ela será. Portanto, quanto mais calma, mais comprida a vida. Por outro lado, se entendermos "carma" como destino, poderíamos ler que quanto mais o destino nos reserva, mais tarefas teremos a cumprir pela vida afora. Portanto, quanto mais Karma, mais cumprida a vida, no sentido de "missão cumprida"... É um brilhante jogo de palavras usando o jeitão dos caipiras do norte do Paraná. Cheio de imigrantes japoneses. E notas dissonantes.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Maganos e pais da pátria

O que vou dizer vai chocar muita gente, especialmente os que se consideram portadores da boa nova, os antigos emancipadores do proletariado, stalinistas e leninistas em geral, que acham Lula o novo messias que veio para fazer a felicidade do povo. Na verdade, o governo do PT não passa de uma fajuta social democracia, reformista e corrupta como todas as demais da nossa história. Eles odeiam o pessoal do PSDB por que são irmãos siameses. A diferença é que os tucanos assumiam abertamente sua aliança com os bandidos do PFL, enquanto os petistas procuram comprar seus bandidos particulares, como demonstrou cabalmente a prática do famigerado Mensalão, ora em julgamento na suprema corte, e que vem sendo negado pelos maganos do partido e advogados de porta de cadeia, mesmo que tenham sido ministros do próprio tribunal superior ou do primeiro escalão governamental.     

O que me chama a atenção neste momento político é a onda saudosista dos tempos da ditadura militar. Volta e meia recebo algum email ou postagem nas redes sociais, enaltecendo aqueles tempos como ícone de honestidade e progresso, quando, na verdade foi um tempo obscuro, onde o terrorismo de estado arruinava famílias trabalhadoras e íntegras, como a do escritor Marcelo Rubens Paiva. Também tenho visto alguns carros ostentando adesivo com a frase "Tenho saudade dos militares". Eu também. Éramos muito felizes naquela época. A sensação do perigo nos colocava a todos como irmãos, os militantes do movimento social. Nossos artistas se inspiravam na luta democrática e produziram as melhores obras de suas carreiras. Chico Buarque nunca mais foi o mesmo, por exemplo.   



Mas, numa coisa esses saudosistas dos anos de chumbo estão certos. Os militares tinham comportamento absolutamente diferente dos maganos de hoje. Tirando o joio que sempre existe em qualquer aglomeramento de humanos, a disciplina militar impunha respeito e dificultava as práticas da corrupção aberta de hoje, como nos demonstra a CPI do senhor Cachoeira. Imaginem a cena de testemunhas em silêncio diante de uma corte militar! Ninguém era doido o suficiente para isso.

A gestão das instâncias governamentais era exercida diretamente pelos altos comandantes militares, que podiam tudo. Nem por isso saíram milionários de seus governos, como os dirigentes atuais, inclusive o senhor Lula.  Figueiredo, por exemplo, terminou seus dias num apartamento de classe média alta, deixando poucos bens para a viúva, além da metade de seu soldo de general da reserva. Geisel foi um exemplo de seriedade e respeito pelo dinheiro público. Consta que um parente seu, ao ocupar cargo de confiança no terceiro ou quarto escalão, aceitou um presente de certo empresário. Geisel ficou sabendo e telefonou furioso para o tal parente, que se desculpou e prometeu não repetir o erro. Geisel lhe teria respondido "Sobre isso não há dúvida alguma, por que você já está demitido".

Atitude muito diferente da galhofa democrática do "toma lá, dá cá"  inaugurada ou retomada por Sarney, que virou padrão ético de todas as gestões seguintes. Entretanto, o que me causa mais revolta é a esculachada fanfarronice com o bolso alheio. É bolsa família, bolsa ditadura, passe do idoso, brasil carinhoso, etc e tal, tudo com nosso suado imposto, um dos mais altos do mundo, embora tenhamos serviços de quinta categoria. Já disse um magano da ditadura, atual aliado dos petistas, que o país deveria se chamar Belíndia, impostos da Bélgica com serviços públicos da Índia. Como cantou o grande Luiz Gonzaga, o rei do baião, que estaria completando cem anos: "Uma esmola para um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão".

Lula, este senhor picareta que continua mandando no governo dos petistas, e quer agora eleger um poste como prefeito de São Paulo, em sua busca alucinada pelo poder hegemônico, ao inaugurar um hospital do SUS no interior do nordeste, disse que aquilo era tão bom que tinha vontade de ficar doente, só para poder ser tratado ali. Deus atendeu sua prece e lhe mandou um câncer, mas, ele não foi se tratar no SUS. Ao contrário, está se tratando no hospital mais caro da América Latina, por nossa conta, é claro, sendo  internado a cada quinze ou trinta dias, por que sua doença é kármica e não sei se vai se curar, apesar de ter a seu favor a minha e a torcidade de todo o povo brasileiro, como qualquer ser humano, mesmo um bandido faroleiro como ele.