quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre Cuba, blogs e viodeotapes



Quando servi ao exército brasileiro na posição de recruta, algumas vezes entrei na sala do capitão de minha companhia. Ali existia um quadro com a figura do Che Guevara, a foto famosa com a boina de guerrilheiro. Nesta foto estavam pregados vários alfinetes vermelhos, que aumentavam em volume na medida em que as forças da repressão eliminavam mais um guerrilheiro, ou suspeito de ser guerrilheiro. O Capitão era um sujeito moreno, bigodudo, duro, implacável, disciplinador, enfim, tudo que se espera de um oficial do exército em tempos de ditadura militar. Ainda mais que em nosso quartel funcionava clandestinamente o centro de torturas comandado pelo DOI-CODI, de triste memória. Ali morreram muitos prisioneiros, debaixo das mais bárbaras práticas de interrogatório, ensinadas pela CIA norte americana. Culpados ou inocentes, não sei. Mas, vi famílias inteiras sendo torturadas, apenas por que um filho ou sobrinho ou mesmo agregado adotado tinha entrado para a guerrilha. A busca por informação valia tudo e nada estava proibido ao regime. Curioso que o comandante do quartel, um coronel ultra conservador e da elite do exército, morador de Ipanema, fazia discursos diários na formatura, lamentando a forma como os agentes do órgão repressor se vestiam, cabelos compridos, roupas descoladas de hippies, e pior, frequentando o cassino e restaurante dos oficiais fardados. Essa era sua grande questão ética. O que se passava nos muros do presídio interno do quartel, isso o nosso coronel fazia questão de ignorar.  



Naquela época, o simples fato de divulgar para jornais estrangeiros informações relevantes sobre as torturas, era considerado crime que devia ser punido com tortura muito pior. Assim foi que conheci algumas aeromoças da Varig, que foram descobertas levando material de denúncia para a Europa. Foram consideradas de alta periculosidade, presas, torturadas e mantidas em cárcere do estado por vários anos, até serem condenadas formalmente e libertadas, por que já tinham cumprido as penas com muito mais pena do que a sentença do juiz militar previa.  

Os militantes que hoje atuam no PT, pelo menos os mais velhos, foram vítimas preferenciais do DOI-CODI. Os torturadores não davam muita importância para o PCB, que consideravam apenas uns velhotes soviéticos burocráticos. O que lhes importava eram os novos idealizadores da revolução socialista, entre eles figuras como José Dirceu e José Genuíno, que pregavam a luta armada. 

Agora, estas figuras, associadas com o embaixador cubano no Brasil, tentam evitar que a blogueira Yoani Sanches conte sua história e mostre seu filme, retratando a repressão de uma outra ditadura militar, esta muito mais atual, no caso, a ditadura militar de Cuba. E para isso usam recursos do estado brasileiro, como funcionários de confiança da presidência da república, polícia política infiltrada nas manifestações de rua, militantes que desencadeiam brigas e agressões profissionais, enfim, um conjunto de ferramentas absolutamente anti-democráticas, apenas para evitar que um regime autoritário amigo seja colocado no alvo midiático. Exatamente o que os militares brasileiros fizeram quando o Brasil foi visitado por ninguém menos que o ditador Augusto Pinochet, preservado oficialmente como legítimo estadista chileno, coisa que ele nunca foi, pois não passava de um sanguinário fascista que tomou o poder à força em seu país.




Dá pena ver este esforço petista para tapar o sol com a peneira. 

Em 1995 eu visitei Cuba pela primeira vez, quando os vôos se abriram, por conta dos novos ares inaugurados pelo novo presidente da república eleito, contra o qual eu combati aguerridamente na campanha eleitoral. Em Havana, um ponto de passagem obrigatório é o bar La Bodeguita del Medio, onde vários intelectuais importantes passaram bons tempos de suas vidas. Pois ali, nas paredes famosas, havia um cartaz que dizia: "Lula é nosso amigo. Mas, FHC não é nosso inimigo". Pelo jeito, os tempos mudaram. 

Estávamos num grupo de esquerdistas latino americanos, muitos dos quais militantes petistas, entre eles alguns assessores da prefeita de São Paulo, Luiza Erundina. Fomos em viagem de lazer e estudos, no meu caso, pago com meu próprio dinheiro. Vimos muitas coisas maravilhosas e outras nem tanto. Numa das cenas, estamos na praia de Varadero, um paraíso caribenho, bebendo num bar sobre a areia. O filho de uma companheira chilena tinha arrumado uma namoradinha cubana e com ela se dirigia para um canto escuro da praia. Neste momento, um homem em trajes civis lhes interrompeu o caminho e disse: "Meu jovem, nós estamos encarregados da sua segurança. No entanto, se você prosseguir em sua intenção de levar esta moça para a escuridão da praia, para fazer o que presumimos seria algo muito pessoal, nós temos a obrigação de  alertá-lo de que nossa atenção sobre o senhor estará suspensa, até que voltem para o claro. O senhor está consciente disso?"     

Nos edifícios que circundavam a orla, agentes disfarçados se escondiam com suas câmeras de video tape, a cada vez que apontávamos nossas câmeras fotográficas para o alto.    

Para que serve esta estorinha? Apenas para mostrar que o verdadeiro Big Brother não é o da Rede Bobo. 



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Timbre de gallo. Chamamé.


A República Guarani foi um sonho de poder dos padres jesuítas, que pretendiam romper com o império espanhol e construir um estado teocrático nos trópicos sul americanos. Depois de 150 anos de organização e proselitismo, tinham 100 mil índios treinados para a guerra. Faltavam armas. Inocentemente, pediram ao papa autorização para comprá-las. Este, passou a informação ao rei de espanha, que providenciou o fim da companhia de jesus em suas terras americanas. Assim, o sonho foi por água abaixo. Parou em Corrientes, Argentina, e se transformou no Chamamé.




A conquista do Rio Grande do Sul foi uma batalha monumental. Os impérios de Portugal e Espanha disputavam aquelas terras sem valor, onde apenas o gado  crescia selvagem na pampa e não servia para nada mais, e, no entanto, a região tinha uma importância estratégica incomum, como porta de entrada para o interior do continente em direção às escarpas minerais dos Andes. E também pela proximidade com o caminho marítimo para o oceano pacífico, contornando o extremo sul da Terra do Fogo, afim de atingir o que realmente interessava, as minas de pedras e metais preciosos da costa de Chile e Peru.

Em 1750 fizeram um acordo. O atual Uruguai ficava com a Espanha e o Mato Grosso ficava com Portugal. E trataram de tomar providências para acabar com as missões jesuíticas. 

Alguma coisa restou na tradição popular. 







Ainda hoje, o oeste Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, e o sul do Mato Grosso se associam aos povos das Missões de Argentina e Paraguai. Juntam-se na língua guarani, para  reproduzir a mesma música construída sob a orientação dos padres jesuítas.





Todos os músicos e compositores ligados às suas raízes guaranis, saem de seus portos naturais, seja o Pantanal matogrossence, seja a região gaúcha das missões, seja a fronteira de Guairá ou Ponta Porã. Todos buscam suas origens atávicas na cidade de Corrientes, onde se encontram os rios Paraguai e Paraná. Ali foi fundado o mundo gaúcho... Inicialmente como bandoleiros, como o Gauchito Gil, o maior santo popular argentino, devidamente ignorado pela igreja católica oficial. Seu sapucay era tão forte que fazia paralisar a tropa policial, enquanto ele fugia no meio do cerco. Só morreu por que, assim como Jesus Cristo, foi traído por um seguidor, pelos mesmos trinta dinheiros. 



  





sábado, 9 de fevereiro de 2013

A língua dos anjos



Derrama o Teu Espírito aqui.
Acende o fogo outra vez

Quando tinha lá meus dezesseis anos de idade, minha mãe queria que eu entrasse para a banda de metais que animava os cultos na sua igreja, o templo da Congregação Cristã no centro de Maringá (PR). Mas, eu só queria estar no meio dos roqueiros, principalmente para transar com as meninas que andavam atrás deles. Logo fui parar num quartel bem longe e em seguida ingressei na dura vida de adulto. Perdi as duas coisas.  De fato, na conta Perdas Intangíveis do balanço existencial de minha adolescência, consta com destaque não ter aprendido a tocar numa banda gospel, assim como não tive as menininhas que sonhava.

Passadas quatro décadas e meia, a vida me deu a sorte de cantar num espetáculo de músicas spirituals, os hinos cristãos dos negros norte americanos. Em outubro do ano passado nós transformamos o Teatro Álvaro de Carvalho, no centro histórico de Florianópolis,  num grande templo evangélico e cantamos ao som de uma banda de metais. Eu mal podia conter o choro, para não fazer feio junto a meus companheiros do Coro Lírico Catarinense.



A seita onde minha mãe professava sua religiosidade, depois de ter perdido a fé no catolicismo,   está considerada dentro do grupo de igrejas pentecostais. Este movimento místico foi uma dissidência tanto do lado dos reformistas, como luteranos e calvinistas, e ao mesmo tempo anglicano, rompendo com a igreja Batista. A partir do ano 1900, um pastor norte americano começou a pregar diferente do usual dos demais pastores batistas. Ele considerava que o culto religioso não era apenas ouvir lições da bíblia, que muitos consideravam chatas e sonolentas, nem rezar de forma convencional. Ele propunha algo mais alegre, mais vivo e mais vibrante. Em sua pregação, o Pastor Charles Parhan, do estado de Kansas, dizia coisas como: "Gente, vocês aprenderam errado a Palavra de Deus!  Vocês são uma geladeira!  Agora vocês vão dar ouvidos aos sentimentos que fluem de vossos corações!  Esqueçam o que os fundamentalistas ensinaram por mil anos, está tudo errado!".  E  passou a incluir nos atos religiosos um espaço para que os crentes pudessem expressar seus sentimentos de adoração. 

Nos cultos pentecostais, é comum a igreja entrar em transe coletivo. Todos rezam ao mesmo tempo, em alto brado, cada qual fazendo sua oração pessoal, o que gera dentro do templo um barulho ensurdecedor e catártico. Alguns crentes entram em estado de semi alucinação, proferindo cantos e frases sem sentido algum, que julgam terem sido canalizadas pelo espírito santo. Seria a língua dos anjos, a mesma que pairou sobre os apóstolos no dia de Pentescostes, como descrito no novo testamento da Bíblia, daí o nome do movimento. 

No Brasil, o movimento pentecostal desembarcou em 1904, trazido por dois pastores suecos. Surpreendentemente a igreja Assembléia de Deus, uma das principais entre as pentecostais, iniciou sua propagação por Belém do Pará, uma das capitais brasileiras sob maior influência dos cultos afro, indígenas e católicos. Além de apresentar uma paisagem humana única, sensual e erótica,  própria do forno tropical que é a floresta ao redor, em meio a um mar de águas doces.  Junto com estes pregadores suecos, veio o mega sucesso gospel de sua igreja.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Pingos de luz




"No trato com as religiões, com as crenças dos outros seres humanos, devemos ter prudência, pois se nosso objetivo é mostrar as pessoas que lá estão presas que existe um outro caminho, não podemos simplesmente atacar a crença ou religião dessa pessoa. Quem vai se colocar em posição defensiva não é a instituição religiosa (enquanto entidade), mas sim, a crença naquela religião que existe internamente em quem nela acredita. Assim, o embate passará a ser pessoal, e não institucional, não levando a nenhum resultado efetivo, pelo simples fato de que a defesa de uma crença ou fé, só faz aumentar o poder desta crença ou fé naquele que a defende.   Para se transformar uma crença, é necessário que ela se transforme em descrença".
Jorge Antonio Oro - Florianópolis (SC)




















"Vi muitas pessoas anunciando que sua meta para este ano é encontrar a "felicidade". Há um equívoco conceitual, aqui. Meta é algo que pode ser medido. E como medir o nível de felicidade? Ela até pode ser um objetivo vago e difuso, mas, não pode ser Meta com 'M' maiúsculo. Felicidade não se mede, apenas se sente. A felicidade é feita de momentos! Como disse Guimarães Rosa, o grande escritor mineiro, "felicidade se encontra nas horinhas descuidadas".  Se eu me perguntar: "Será que sou feliz?", já não sou. 
Não há felicidade perene. Se você ficar um mês em estado de êxtase, portanto, super feliz, terá virado rotina e você vai querer outra coisa no lugar.
O segredo da felicidade é a novidade. Renovar sempre, não se acomodar na rotina, estar atento para o novo onde quer que ele se manifeste, abrir-se para o mundo, questionar-se permanentemente sobre as regras e usos comuns, enfim, viver cada dia como se ele fosse o último. Aqui e agora, eis a chave da felicidade.   Prazer e risco são inseparáveis. O contrário de amor não é ódio, mas, medo."
Laercio Do Arte - Florianópolis (SC)






"Seu dever é SER, e não ser isso ou ser aquilo. "Eu sou o que eu sou" resume toda a verdade. O método para se chegar ao SER é simples:  "fique em silêncio". O que significa o silêncio? Significa "destrua seu eu", pois qualquer forma de ego é causa de problemas para o SER. Só se pode ser o que se é. Todo mundo quer ser diferente. Tente não mudar só para atender expectativas alheias, se aceite e sinta uma vida maravilhosa surgir de dentro de você.".
Nato Alves - Florianópolis (SC)