terça-feira, 30 de abril de 2013

Falando fora de hora


No começo dos anos oitenta, havia uma insatisfação com a música de discoteca, aquela que havia substituído o Rock and Roll dos anos setenta. Ninguém mais aguentava dançar tanto tempo, no mesmo ritmo e com as mesmas musiquinhas sem sentido, apenas para balançar, dar as sacudidelas necessárias para entrar no ponto de alucinação, e, pronto! 


Agora entrava no ar certas coisas mais fundamentais, alguns questionamentos mais profundos, vindos de quasares mais distantes no cosmos, numa busca mais sutil por emoções mais sensíveis e refinadas.  

Entrava no ar a Era de Aquarius.


O álbum de 1981 chamava-se "Viajante de Longa Distância" e trazia na capa uma cena imaginária, onde um artista se apresentava a um pequeno agrupamento humano, em alguma aldeia perdida no meio da imensidão medieval.  Ficava clara a ideia de que a cultura era espalhada de forma pessoal, de modo que a presença de um ser espacial não poderia ser ignorada. Ficava a imagem de que este ser viajante especial vinha trazendo algo mais.





Isso não começou de repente, não, mesmo! 
Em 1968, uma peça teatral de grande sucesso mostrava o caminho do que seria a música de qualidade no futuro. A união do rock and roll com o blues. E o misticismo da Nova Era por detrás da depressão existencial ...  Esperança nova no ar!







Apesar da esperança nova que tentava espalhar alguma luz nas trevas, a hecatombe nuclear se anunciava. Alarme falso, mas, como doeu!!!




No meu espelho retrovisor, o sol está baixando
Afundando atrás das pontes na estrada
E eu penso em todas as coisas boas
Que deixamos por fazer
E eu sofro premonições
Confirmo suspeitas
Do holocausto que está chegando

O arame que segura a rolha
Que mantém a raiva dentro
Se rompe
E de repente, é dia novamente
O sol está no leste,
Apesar do dia ter passado
Dois sóis no pôr-do-sol
Hmmmmmmmmmm
Será que a raça humana está partindo?

Como na hora em que o freio travou
E você escorrega para debaixo do caminhão
"Oh não!"
Você congela os momentos no tempo com seu medo
E você nunca mais ouvirá suas vozes
"Pai, pai!"
E você nunca mais verá seus rostos
Você não tem mais o recurso da lei

E enquanto o para-brisa derrete
Minhas lágrimas evaporam
Deixando apenas brasa à proteger
Finalmente eu entendi os sentimentos dos poucos que somos
Cinzas e diamantes
O inimigo e o amigo
Éramos todos iguais no final.


Eu sou inocente





Imagine um grupo de "comunistas" querendo combater a ditadura militar em plena Universidade Federal do Paraná, nos anos de chumbo de 1970 e tantos.  Imagine a preferência deste grupo por um tipo de espetáculo. Todos queriam sangue.

Luiz Gonzaga Júnior era o preferido da galera politizada. Puro sangue. 

Acontece que Gonzaguinha era muito caro, então, eu, que era diretor cultural do centro acadêmico, achei por bem diversificar e trouxe o Tom Zé. Ele havia sido um dos expoentes da Tropicália, havia ganho alguns festivais de música popular, tinha composições famosas como "São, São Paulo, Meu Amor", havia trabalhado em projetos revolucionários junto com gente estranha, tipo Os Mutantes e Rita Lee. 

Enfim, estava meio renegado pela esquerda intelectualizada, assim como não tinha espaço no show business convencional, do tipo popular. Era um elemento artístico perdido no meio do nada. À procura de um espaço. Aceitou imediatamente meu convite. 

Ele e seu músico acompanhante, mais as namoradas, vieram de SP de ônibus, ficaram hospedados em casas de amigos, bebiam junto com a gente e comiam da nossa comida. Foram dias de glória ...

Foi um dos melhores momentos artísticos que presenciei na minha vida!!!


terça-feira, 23 de abril de 2013

Coral Eletrosul, patrocínios e programas de incentivo à cultura




Abertura da Semana Interna de Prevenção de Acidentes na Eletrosul


Na última segunda feira nos apresentamos oficialmente pela primeira vez com o novo uniforme do Coral Eletrosul. Calça e paletó bem cortado, feito por um atelier especializado. Camisa branca impecável, gravata com corte exclusivo, tudo de primeiríssima qualidade. Custo para os cantores? Nenhum.

Eu, que já cantei em vários corais de renome, alguns de universidades, outros de órgãos públicos ou entidades de direito privado, estou acostumado não só pagar pelo meu próprio uniforme, como também contribuir mensalmente para a remuneração do regente e a manutenção da infra estrutura. Aqui na Eletrosul, além de não precisarmos contribuir com nada, a não ser nosso talento, ainda temos um auditório confortável, com ar condicionado e som de primeira, para os ensaios e apresentações oficiais. Ainda assim, é muito baixa a adesão dos empregados da empresa. Na sua grande maioria, os cantores são pessoas aposentadas, agregados ou terceirizados. 

Isso não é novidade! Eu me lembro que quando estava na ativa, também não me interessava pelas atividades do coral. Os empregados não sentem orgulho em cantar em nome da organização que lhes dá o salário e o padrão social invejável que os distingue de outros empregadores. Parece que há uma certa fusão orgânica entre o coro e a direção da empresa, vale dizer, entre os cantores que atuam em nome da organização e os seus patrões. No caso de uma empresa estatal como a nossa, o patrão seria o próprio estado, representado por seus dirigentes escolhidos politicamente, como sempre foram, que são os diretores da empresa, devidamente nomeados pela autoridade política de plantão. Isso ficou sendo marca registrada não só dos corais, mas também dos times de futebol e esportes em geral. Em ambientes onde há representação classista forte e organizada, é assim mesmo. Tudo que vem da empresa cheira à pelegagem, embora a empresa nunca tenha interferido uma vírgula em nosso coral, aliás, o tem ignorado solenemente, até desprezando o capital político e propagandístico que ele representa. 

Se o Coral Eletrosul existe, isso se deve a meia dúzia de abnegados que lutam por ele, inclusive no front político, em busca do apoio de algum manda chuva influente, para obter o espaço mínimo que se requer dentro do orçamento corporativo. Por pouco que seja, é suficiente para manter viva a chama do canto e da música. Eles não sabem o que estão perdendo, mas, melhor deixar quieto, senão, ao chamarmos muita atenção, é capaz de alguém importante reclamar do "desperdício" que é investir num coral e o nosso grupo pode acabar acabando, mesmo. Isso é o que não pode acontecer.  Deixa como está, que está bom!


Sempre que se fala em ousar um pouco mais, ou seja, gastar um pouco mais, sempre somos lembrados de que o coro da Eletrosul não é uma representação formal da empresa, aliás, ele nem existe no organograma. Sempre nos é explicado que se trata de um "patrocínio cultural" e, dentro deste espectro, tem amplitude e poder decisório limitadíssimo. Bastante compreensível, portanto, que o patrocínio empresarial se dê nas questões básicas como uniforme e remuneração do cast técnico necessário, como o regente e o pianista que nos acompanha. 

Todos os estados mais a União federal possuem programas de incentivo à cultura, onde um grupo de indicados do "rei" se reúnem para analisar os projetos que buscam patrocínio oficial e escolhem aqueles que vão ser agraciados. A maioria destes projetos só poderia mesmo ser do tipo  "chapa branca", entidades e organizações dóceis e compreensíveis da necessidade de exercitar o supremo ideal franciscano, "É dando que se recebe".  Está tudo bem, dizem os auditores.  

" Não está, não! " , digo eu.   Há muita coisa podre no reino da Dinamarca, como dizia o Shakespeare, ele próprio que sentiu na carne o que é ser amigo do rei hoje e desterrado amanhã.

Também existem leis de incentivos fiscais, onde as empresas que patrocinam projetos culturais podem descontar de seus impostos a pagar,  uma parte ou mesmo o total do que investem em "cultura", desde que devidamente autorizadas pelas entidades encarregadas de aprovar os projetos beneficiários. Uma verdadeira indústria de confecção de projetos e de facilitadores de tramitação formou-se no Brasil, aperfeiçoando os métodos lobistas. Mega empresas estão altamente interessadas nesse mercado, unindo o útil (isenção de impostos) ao agradável (marketing do bem, qualificado  e popular). Num ano anterior, quando ainda se usava celebrar o aniversário da cidade, a empresa Angeloni se beneficiou com seu nome no topo de vários outdoors espalhados pela cidade, anunciando um grande show patrocinado por ela, no qual provavelmente não gastou um centavo,  nem com a água para matar a sede dos operários que montaram o palco. 

No último verão, o grupo RBS de comunicação (retransmissor da Rede Globo) usou e abusou dessa, digamos, facilidade da Lei, e nos brindou com várias festas na praia, todas de gosto duvidoso, um festival de frivolidades para distrair jovens turistas ricos e ignorantes. Tais eventos nada acrescentaram à cultura local ou mesmo nacional. Mas, o som e a propaganda da RBS rolou solta nas praias da ilha.  Investimento privado, zero.   Só patrocínio oficial e abstinência fiscal. Assim caminha a cultura nacional. Por falar nisso, alguém aí é capaz de dizer na lata o nome da autoridade que atende por aquele Ministério?



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobre as propriedades curativas (ou destrutivas) da música



Eu sabia intuitivamente que deveria existir uma razão para eu gostar tanto de ouvir música de "qualidade" e cantar. Na ausência dos predicados que tornam um sujeito bom cantor, contentei-me em aplicar-me aos ensaios e aulas de canto, de modo a ter uma capacidade média de interpretação, e poder entrar em alguns corais, partilhando não apenas a emoção do canto mas o ouvir dos demais cantores, alguns simplesmente angelicais, como as sopranos e contraltos do nosso Coro Lírico Catarinense e do Coral Eletrosul. 



Quando coloco "qualidade" entre aspas, o faço por que este conceito é muito relativo. Acho mais, que há um certo preconceito no autor do texto abaixo, quando ele se refere a música desagradável e desarmônica como "conjuntos de barulhos os quais hoje denominam-se como músicas".  Entendo os motivos pelos quais ele foi levado a fazer tal declaração, mas, não é verdade. Nem todos os barulhos desarmônicos são desagradáveis ou estejam à serviço da alienação e do desiquilíbrio pessoal. Por exemplo, quando Egberto Gismonti compõe, não esperemos que a média da audiência ache aquilo "normal". Ou quando Arrigo Barnabé compôs a ópera "Clara Crocodilo" (uma Carmen do terceiro milênio!), o fez justamente para chocar a moral burguesa e a música temperada ocidental, que vigora como padrão desde 1700, pelo menos. Nem por isso são músicas sem qualidade ou sem inspiração. A mim, pelo menos, elas comovem profundamente. 







Quanto ao resto do conteúdo de nosso mestre que se recusa a ser chamado de mestre, continuamos te admirando, Mestre! 
Rs rs rs... ! Vamos ao texto, publicado hoje em sua página. 

"
Compartilho alguns fragmentos para que cada um descubra o seu próprio som interno.

Eles (a ciência) não compreendem, que não é a Quinta Sinfonia que regenera ou cura, ela só faz vibrar as notas da Quinta que já estejam no ouvinte. Cabe uma observação que, no caso da experiencia com células no laboratório, as mesmas por não estarem conectadas a um organismo vivo, estão conectadas ao astral de quem as manipula. 

Assim, vibra e desperta o símile, e inicia a reorganização elétrica celular. 

Quanto mais identificado com a música, quanto mais intensa a percepção no ouvinte, quanto mais sublime os sentimentos acordados(no sentido literal e figurado) no ouvinte, maior é o processo de regeneração.

Isto ocorre pq a eletricidade básica que ordena cada átomo, cada célula, cada órgão, cada sistema, cada ser humano, é música, é o som, forma de expansão de Fohat, Amor Universal, mantenedor da matéria e do conceito de vida.

Assim, uma Quinta, uma Nona de Beethowen pode ser só barulho para alguns seres humanos e ao mesmo tempo, podem ser a "summa matéria" (alquímica, que a tudo transforma) para outros.

Esta é a origem da musicoterapia, que funciona não pela música em si, mas pelo que existe em quem a ouve.

Henrique José de Souza diz: " a idéia é o Verbo que toma carne através da pena".

Uma música clássica, uma sinfonia, é o arranjo de sons, de forças sutis, na mente, no astral do autor, e que tomam vida quando executadas, agindo na alma de quem a ouve, por similaridade.

Isto acontece pq a única forma de vermos, ouvirmos, sentirmos, etc é trazermos a coisa ouvida, sentida, vista para dentro de nós mesmos. 
É impossível ver algo fora de cada um. A imagem , o símile deverá ser feito em Manas (a mente de cada um) para que seja traduzida e identificada. 

Esta é a única função do que chamamos 5 sentidos: a de traduzir em imagens o mundo que nos cerca, entregando estas imagens a Manas, para tradução, associação, análise e reação. 

Portanto, da mesma forma acontece com as músicas desarmônicas(ou estes conjuntos de barulhos os quais hoje denominam-se como músicas): quanto mais ressonância encontram no ouvinte, mais o desarmonizam, tornando caótico seu mental, astral e vital, a ponto de a expressão da audição exteriorizada em movimentos (o que se chama dança) ser frenética e desordenada, como em um organismo sem controle elétrico. 

O diz-me com quem andas e te direi quem és, não se refere às pessoas que tenhamos a nossa volta. Refere-se sim, aqueles com os quais cada um anda em seu astral e mental. 

Por isto, quanto maior o silêncio interno, mais límpida é a nossa própria voz(que é aquela que antecede a exteriorização do som). E a voz que ouvimos, é a tradução do que vemos sem ver, rudimentos do que vai ser, no futuro, o estado de permeabilidade, onde seremos Um com o Todo(mas, conscientes).

Do irreal conduz-me ao real. Das trevas à luz, da morte à imortalidade: conhecimento.

Fraterno abraço, e om silêncio a todos.

J.Oro"
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Música Medieval Brasileira: Cantiga do Estradar







Esta cantiga é uma metáfora da vida humana. É o que se sente ao ouvir o relato dessa viagem interior em busca de si mesmo, verdadeiro rito de purificação cheio de provas e ensinamentos. A musica é feita também em espiral, seguindo as frequências do que seria uma proporção divina, nas voltas de um caminho ascendente e sem fim, em busca do estar em paz com seu Deus. Assim, constrói-se esta carta caatingueira com os elementos das estórias e dos mitos antigos, trazidos de um Portugal mouro e medieval, tão presentes nas memorias do povo sertanejo do Brasil.  A purificação se faz fundamentada na rocha da fé, força maior do peregrino que viaja a vida neste mundo, onde a estrada está sempre a tangenciar verdadeiros abismos traiçoeiramente engendrados pelo "Malino", minados de alçapões e laços perniciosos que arrastam as almas para reinos obscuros. Esta canção é uma verdadeira seção iniciática, fonte de inspiração para os que vagam pela senda da vida, em busca de realização pessoal e sabedoria para prosseguir a caminhada


Aqui a purificação se faz também, e sobretudo, pelo completo esvaziamento de si mesmo para alcançar a plenitude do amor inspirado nos grandes mestres que já pisaram nesta Nave, o amor incondicional pela vida e pelos seres vivos. E a cantiga, ligando-se toda ao tema do exílio já vivido, do karma que já se realizou e liberou o viajante para a volta ao lar, para tomar o caminho da subida ao paraíso,  já livre dos perigos da procura de si mesmo, da aventura do saber, do percorrer-se  -- uma transgressão sujeita a todos os riscos -- "isso se deu quano môço e eu saí a percurar".


Ao tratar do universo mágico da transmissão do ensinamento -- verdadeiro aparelho do saber verdadeiro -- é que se ajusta o dialeto caatingueiro, da contemplação mística que só é dada aos "puros", pelo menos para os que realmente se esforçam para melhorar a vida no planeta, esta terra corrompida por crimes e rapinas, "marguiada" (mergulhada) em transgressão.
























LETRA ORIGINAL DA CANÇÃO,  
 ELOMAR FIGUEIRA MELO, sertão da Bahia, preservando o linguajar do sertanejo simples.



Tá fechando sete tempo
qui mia vida é camiá
pulas istradas do mundo
dia e noite sem pará
Já visitei os sete rêno
adonde eu tia qui cantá
sete didal de veneno
traguei sem pestanejá
mais duras penas só eu veno
ôtro cristão prá suportá
sô irirmão do sufrimento
de pauta vea c'a dô
ajuntei no isquicimento
o qui o baldono guardô
meus meste a istrada e o vento
quem na vida me insinô
vô me alembrano na viage
das pinura qui passei
daquelas duras passage
nos lugari adonde andei
Só de pensá me dá friage
nos sucesso qui assentei
na mia lembrança
ligião de condenados
nos grilhão acorrentados
nas treva da inguinorança
sem a luiz do Grande Rei
tudo isso eu vi nas mia andança
nos tempo qui eu bascuiava
o trecho alei
tô de volta já faiz tempo
qui dexei o meu lugá
isso se deu cuano moço
qui eu saí a percurá
nas inlusão que hai no mundo
nas bramura qui hai pru lá
saltei pur prefundos pôço
qui o Tioso tem pru lá
Jesus livrô derna d'eu môço
do raivoso me paiá
já passei pur tantas prova
inda tem prova a infrentá
vô cantando mias trova
qui ajuntei no camiá
lá no céu vejo a lua nova
cumpaia do istradá
ele insinô qui nois vivesse
a vida aqui só pru passá
nois intonce invitasse
o mau disejo e o coração
nois prufiasse pra sê branco
inda mais puro
qui o capucho do algudão
qui nun juntasse dividisse
nem negasse a quem pidisse
nosso amô o nosso bem
nossos terém nosso perdão
só assim nois vê a face ogusta
do qui habita os altos ceus
o Piedoso o Manso o Justo
o Fiel e cumpassivo
Siô de mortos e vivos
Nosso Pai e nosso Deus
disse qui havéra de voltá
cuano essa terra pecadora
marguiada in transgressão
tivesse chea de violença
de rapina de mintira e de ladrão







segunda-feira, 15 de abril de 2013

Rapte-me, Caetano Veloso!



Caetano Veloso foi o primeiro homem, junto com Gilberto Gil, a assumir sua "porção mulher". Alguns fofoqueiros dizem que até chegou a experimentar a bissexualidade, o que muito comprometia sua imagem de artista, certamente um dos mais importantes do mundo. Foi salvo dessa confusão pela sua então nova  companheira, a empresária multi milionária Paula Lavigne, mãe de dois de seus tres filhos, com quem viveu quase vinte anos. Após a separação, solicitada por ela, porque se apaixonara por um surfista carioca (mundo delirante e fofoqueiro,  este do meio artístico!), Caetano reestreou em grande estilo na noite carioca, ao lado de uma deslumbrante modelo, num restaurante de Ipanema. O jantar foi interrompido por uma furiosa Paulinha, morrendo de ciúmes. kkk. 

O primeiro álbum produzido na fase "Produções Paulinha" foi uma primorosa e rara homenagem à música latino americana, onde Caetano apresentou ao Brasil duas maravilhas que lhe eram desconhecidas: o arranjador Jacques Morelembaum e a compositora peruana Chabuca Granda.

 
Apesar da fama de "porra loca", Caetano sempre foi muito ético e preocupado com os assuntos da vida pública e do combate permanente aos costumes atrasados e caretas de nossa geração de cidadãos e cidadãs de classe média. 
No dia em que o astronauta americano pisou na lua pela primeira vez, Caetano Veloso estava preso. Não chegou a ser torturado fisicamente, como os usuais prisioneiros políticos, até por que sua militância se dava apenas na revolução dos costumes, não chegava a ameaçar a ditadura, nem pretendia tomar o poder. Após algum tempo detido num quartel do exército, foi gentilmente convocado a deixar o país. Que tempos, meu deus do céu, que tempos!!! 
Foi então que conheceu o exílio em Londres, fato que muito influenciou positivamente sua carreira artística, por que pegou os últimos momentos de ninguém menos que The Beatles e o seu último álbum, em meio à última influência de John Lennon, enquanto Beatle, que foi a religiosidade e filosofia indianas, tão marcadamente presente nesta canção que vos apresento. A Tropicália nunca mais foi a mesma!



Pedro Almodovar é um dos meus cineastas preferidos. Apaixonado por Caetano Veloso, como eu, colocou o bahiano numa película, o mega sucesso "Fale com Ela". Ali, Caetano mostrou ao mundo o arranjador Jaques Morelembaum. Ambos transformaram uma canção chinfrim mexicana num evento artístico fantástico, com ares de sofisticação e bom gosto. No filme, Almodovar coloca um personagem a dizer algo mal educado, após ouvir a canção, num bar de Barcelona, se não me engano. O personagem diz para a sua namorada ao lado "Esse Caetano me arrepia os cabelos do cú". Desculpem crianças, não sabia que vocês estavam na sala, kkk.


A identificação de Caetano com Barcelona veio do caráter libertário daquela cidade mediterrânea, que muitos apontam como a verdadeira capital do mundo moderno. Para ela, Caetano dedicou uma de suas melhores canções, onde a coloca em destaque entre as cidades mais importantes do mundo de suas memórias afetivas.




terça-feira, 9 de abril de 2013

Amazing Grace


Mais de uma pessoa com quem falei saiu chorando do filme "O Quarteto", produção inglesa surpreendentemente bem dirigida pelo veterano ator norte americano Dustin Hoffmann (A Primeira Noite de Um Homem, nos longínquos anos sessenta). O filme é basicamente em torno do imenso ego dos artistas. A lição, se há alguma, é "quanto mais brilhante for uma pessoa, mais ego terá". O cenário é um asilo de luxo, no magnífico campo das cercanias de Londres,  local maravilhoso que serve de moradia a velhos artistas do mundo musical, onde se destacam quatro excelentes cantores de óperas, dois homens e duas mulheres, sendo que o quarto componente se completa com a chegada da ex esposa de um dos cantores, a qual, a seu tempo, foi a estrela principal da ópera inglesa. Eles nunca mais se falaram, depois que a moça foi pra cama com um tenor italiano, enquanto se apresentava no Teatro Scala de Milano. Aquilo acabou com o casamento e com a energia amorosa que ambos tinham, que foi trocada pelo ódio e amargura infernal que habitava os seus corações, principalmente do homem, que já estava em suposta paz, dando palestras para jovens e vivendo sua velhice de forma serena e digna. A chegada do objeto de seu ódio mudou tudo, até o final surpreendente, em que ambos retomam o amor, por razões que a razão desconhece, como diria Vinícius de Morais.




Essa questão do EGO é recorrente na história da humanidade. Todos os místicos sempre pregaram que era necessário destruí-lo, por que ele significa afastamento da energia divina, que é basicamente doadora e não acumuladora. E não há nada mais acumulador do que uma pessoa centrada no próprio umbigo, concordam?

Pois, de um tempo para cá, o assunto mudou um pouco de foco. Certos movimentos espiritualistas, a partir do indiano Osho, complementado pela ordem mística brasileira chamada Eubiose, passaram a valorizar a expressão pessoal como muito importante no caminho do crescimento. Passamos a entender que sem ego, também não existe alma. E esta é nossa parte realmente imortal, que passa de encarnação em encarnação, em busca da iluminação final, que ponha fim ao ciclo das tentativas de melhoria, ou seja, o acesso ao paraíso. Depois deste evento cósmico de natureza trancedental, ninguém sabe como será nossa vida, aquela futura e  eterna vivência dos seres ascensos, os que venceram a morte, à exemplo de Jesus Cristo ou do Gaudama Buddha.  

Pelo que sabemos de relatos psicografados, o céu é um ambiente neutro, onde não existem paixões nem sexo. Os espíritos iluminados são apenas energia e estão a serviço da evolução cósmica e, apenas por isso, se bastam. A imagem que temos do céu é nada agradável, aquele ambiente insípido e inodoro, anjos cantando em nuvens de algodão. Tem uma piada que conta da aventura de um ser que adentrou aos céus e ficou entediado com tanta paz. Reclamando com São Pedro, recebeu autorização para visitar o inferno e avaliar as condições de mudança. Ficou encantado, com tanta mulher gostosa, festa permanente, conforto e bebidas à vontade. Não teve dúvidas em pedir a São Pedro sua transferência irrevogável. Foi recebido por um diabo com cheiro de enxofre, com um relho na mão a cutucar sua bunda, mandado para um trabalho forçado num calor de 40 graus. Quando reclamou ao diabo de plantão, recebeu a seguinte informação: "Ontem, nós estávamos em campanha eleitoral para escolher o diabo presidente. Hoje, tudo voltou ao normal, seu vagabundo, trata de empunhar direito esta picareta".

Uma das coisas mais agradáveis ao ser humano com alguma sensibilidade, é a música cantada ou tocada. Saber vibrar um instrumento musical, como as próprias cordas vocais, no caso do canto, é a suprema experiência mística permitida a um cidadão comum. Certa ocasião, tivemos oportunidade de participar de um concerto multi corais, organizado pela equipe da Catedral Metropolitana de Florianópolis, onde se apresentaram, ouso dizer, os melhores corais católicos da nossa região Nessa oportunidade, nosso Coro Lírico Catarinense cantou uma obra de 1860, escrita por um grande compositor francês, cujo nome aparece no filme "O Quarteto", ornamentando o aposento da estrela principal, por isso mesmo a minha lembrança e associação entre os dois assuntos. Infelizmente não tenho o vídeo da nossa apresentação, mas, posso garantir que ela não ficou devendo a esta que estou postando. 







Então, para encerrar a emoção espiritual completa, vamos ouvir  uma obra que causa tremedeira em qualquer coral do mundo,  para  a qual é necessário ter autorização explícita da divindade ao cantá-la, exatamente pelo que representa na religiosidade cristã do planeta.  Nosso amigo do coro, o Esis Rocha, contava que a música ficou no ouvido do compositor por anos, antes que tivesse vindo à tona, quando ele se tornou pastor batista nos Estados Unidos. Ela corresponderia ao soar das lamentações que ecoava dos porões do navio de escravos, que era o seu negócio, até que uma tempestade em pleno Atlântico sul o transformou de escravocrata em abolicionista. É uma linda história de milagres. Mais uma!



Allan Jackson foi um promissor cantor de músicas country nos anos 80. 
Não sei dizer o que foi feito dele.