segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A REPÚBLICA DE PLATÃO





Os gregos pré socráticos comunicavam suas ideias principalmente através de poemas, como Odisseia ou Ilíada. Sócrates (470 a 399 a.c.) resolveu apenas falar. Nunca escreveu uma linha. Se suas ideias fossem úteis, seus discípulos que se encarregassem de proclamá-las, do modo que melhor lhes parecesse.

Platão (428 a 348 a.c.), talvez o principal deles, permaneceu mudo e calado ao longo do processo de julgamento e até a execução de Sócrates, por um crime improvável, o de "exercer más influências sobre a juventude de Atenas", num período em que “deuses” estrangeiros estavam se tornando populares em Atenas. Tal acusação foi formalizada por dois poetas que lhe tinham inveja, o que torna ainda mais injusta a sentença conferida por um tribunal popular.

O mexerico devastador provocou um terremoto nas hostes gregas, mas, não foi possível evitar o pior. O Rei adiou ao máximo a sentença, chegou a oferecer a Sócrates uma possibilidade de fuga, saída recusada pelo condenado. 

Platão ficou todo esse dramático tempo doente, em profunda depressão, refletindo sobre as injustiças cometidas pela Democracia, como praticada pelos ignorantes, interesseiros e egoístas cidadãos atenienses ordinários. Não chegou a aproveitar as últimas e imperdíveis conferências dadas pelo mestre em sua prisão, no aguardo do cumprimento da sentença fatídica.

Finalmente, Sócrates tomou seu cálice de cicuta, veneno mortal utilizado para executar os prisioneiros mais nobres, em suicídio deliberado. Então, PLATÃO levantou-se de seu catre e retomou a palavra escrita. A linguagem que escolheu para se comunicar com o mundo e deixar suas mensagens para a posteridade, foi a forma de DIÁLOGOS.
Neles, Platão usa argumentação dialética. Assim, o sol-luz-claridade são conceitos antagônicos a escuridão e trevas, da mesma maneira que JUSTIÇA está em contradição com CORRUPÇÃO.


No centro dos debates, estava sempre o personagem SÓCRATES, como se Platão dissesse "Você não escreveu nada a vida inteira, agora deixa que eu escrevo por você". Logo o primeiro diálogo foi 'APOLOGIA DE SÓCRATES', onde Platão reproduz o discurso que teria sido proferido pelo próprio réu em sua defesa na sessão de julgamento. Depois, Platão escreveu mais 35 diálogos e 13 cartas (o equivalente bíblico das epístolas).

A REPÚBLICA de Platão é um diálogo suposto entre Sócrates (então já falecido) e os dois irmãos mais velhos do próprio Platão, Glauco e Adimanto, então ainda bem vivinhos da silva, além de mais alguns personagens circunstanciais.  É o Diálogo mais célebre de Platão, com dez grandes capítulos chamados de Livros. Cada um deles é dedicado a um tema principal, embora um seja praticamente continuidade do outro.
O primeiro trata de responder a questão 'EM QUE CONSISTE A JUSTIÇA?".
Ao longo dos livros 2, 3 e 4, tenta-se detalhar o que seriam os PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA. Aqui, Platão delineia sua famosa tese semelhante às castas indianas, provavelmente sem saber delas. Trata-se de dar ordem ao Estado, dentro do princípio de que CADA UM DEVE FAZER AQUILO QUE LHE CABE, sem diferenciação hierárquica de poder ou de riqueza. À categoria dos dirigentes, por exemplo, não é permitido gerar descendência nem possuir bens materiais. Que tal?
O Livro 5 fala especificamente das condições de ascensão para a SOCIEDADE IDEAL. Nele encontramos a DIALÉTICA DA LINHA DIVIDIDA, mostrando que o conhecimento é fundamental para a ascensão em direção ao BEM, ou seja, ao estado de excelência do ponto de vista individual tanto quanto social.
O Livro 6 fala do MITO DA CAVERNA, explicando que aquele que se liberta das ilusões pode ver o sol sem cegar-se. A este seria bom entregar a responsabilidade de DIRIGIR a sociedade organizada, ou a cidade, no caso de Atenas, que equivaleria ao atual moderno conceito de Estado.
Quando chega nos Livros 8 e 9, Platão fala da inevitável decadência da Cidade/Estado, quando o poder se concentra numa dada aliança oligárquica, levando ao individualismo dentro da democracia, que fatalmente redundará na TIRANIA.
Finalmente, no Livro 10, Platão conjectura sobre a função e a importância da ARTE, MORAL e FILOSOFIA. Parece que se trata de um adendo ao tema principal. 



EM QUE CONSISTE A JUSTIÇA ?

“Em dizer sempre a verdade e pagar as contas”, afirma um ancião ao receber Sócrates em sua casa para conversarem, os dois, já idosos, mais um grupo de jovens, após uma festa religiosa. Um dos jovens contradita que a Justiça, em sua visão pessoal, decorrente das observações que tem do mundo, “é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos”. 
Sócrates vai conduzindo um longo debate com os jovens, nos quais se colocam teses estranhas como:

  • A justiça é a arte de roubar a favor dos amigos
  • Não é próprio dos justos ajudar amigos que não o mereçam
  • Em nenhum caso parece justo fazer o mal
  • A justiça é sempre a favor do mais forte
  • O justo tem sempre prejuízo. Portanto, a injustiça é melhor
  • O homem culto tira vantagem sobre o ignorante. 
  • O homem justo não tira vantagens sobre o injusto
  • Governar é estar a serviço dos governados
  • Cada coisa tem VALOR na sua virtude. 
No final, conclui-se que a prática da JUSTIÇA faz o homem BOM. 
E um homem bom não pratica o mal, nem aos inimigos.
Portanto: 
JUSTIÇA é virtude e sabedoria. 
INJUSTIÇA é vício e ignorância.
Apesar de terem assim concluído, permanece a dificuldade na definição do que é JUSTIÇA.
Sócrates questiona: Não sabendo o que é JUSTIÇA, como poderei saber que a Justiça é virtude, e não o contrário?
Ser JUSTO é trabalhoso e difícil, enquanto ser INJUSTO é mais fácil e prazeroso.
Por que então as pessoas seriam JUSTAS? 
POR OBEDIÊNCIA ÀS LEIS. 
Por que é perigoso e custa caro ser Injusto.
Aqui, o conceito de JUSTIÇA sai do plano individual e passa para o nível coletivo da SOCIEDADE.  A Justiça é uma virtude por si mesma, para regular as interações sociais.

PORTANTO, É NECESSÁRIO QUE AS LEIS SEJAM BEM FEITAS.

E mais:

A Injustiça não pode ser mais proveitosa que a Justiça.
Onde houver Justiça, haverá felicidade geral.



A CIDADE e o INDIVÍDUO

Fica claro logo no início de "A República",  que a Grécia passava por grandes transformações sociais a partir do ano 500 a.c., em confrontos contra seus vizinhos, então sob influência direta do Império Persa, atual Irã, que dominou todo o meio oriente, leste da Europa e norte da África. A ilusória vitória na batalha de Matarona (490 a.c.) deu novo ânimo à cidade de Atenas, mas, não conseguiu evitar que toda a Grécia fosse invadida pelos persas no ano 480 a.c., tendo a população ateniense fugido para as ilhas, vendo saqueada sua capital. Poucos anos depois, os gregos expulsaram os persas e fundaram novas alianças entre si, conquistando grande progresso material, assim como nas artes, medicina, matemática, arquitetura e na FILOSOFIA.  A aliança helênica entre Atenas e Esparta foi amplamente beneficiada pelo período de paz, com apenas pequenas rusgas entre os vizinhos, trazendo grande prosperidade a todo o mundo egeu e mediterrâneo. É nesse ambiente de riqueza e prosperidade que se dá o apogeu da civilização grega, onde cada cidadão tinha ampla liberdade de língua, religião, pensamento político e influência na escolha dos administradores do Estado. Mesmo a escravos e estrangeiros asilados, eram concedidos confortos e facilidades nunca antes proporcionados. Nesse período, que vai até a capitulação ante o reino da Macedônia (323 a.c.), viveu Platão.
Mesmo no ambiente progressista de Atenas, Platão passou a imaginar a cidade perfeita. Ela haveria de praticar a justiça perfeita, sim, mas também deveria preparar sua transição para o mundo perfeito, o mundo do BEM. Isso deveria ser necessariamente papel do processo educacional. Nesse assunto, o personagem Sócrates faz várias considerações interessantes, como o papel da Música e da Ginástica na educação dos jovens. Ambas são convenientes para a perfeita harmonia entre tensão máxima e relaxamento máximo.  Experimentando os dois extremos, o ser humano se aperfeiçoa para o caminho do meio, nem tão tenso como os que fazem só ginástica, nem tão relaxado como os que só ouvem música. Também se deve levar em conta a importância da vivência pessoal e experiência acumulada, como um Juiz, a quem o passar dos anos e o observar das penúrias da condição humana, vai tornando mais sábia a aplicação da justiça.
A cidade perfeita é constituída de TEMPERANÇA, CORAGEM e SABEDORIA. Isso lhe é transferido a partir dos méritos de cada cidadão que a habita, que devem ter passado por um processo educacional que os preparou ao desempenho eficaz de sua missão na vida. Cada qual deve fazer aquilo que lhe cabe, dentro de uma organização perfeita, voltada para o bem comum.  A cada cidadão lhe será exigido executar com o máximo de perfeição o papel que lhe cabe, mas, não lhe é permitido invadir a área de atuação de outra especialidade. Assim, Platão imagina três grandes categorias de cidadãos especializados.
Uma está dedicada à TEMPERANÇA. Esta é movida por interesses ligados às atividades produtivas. São os artesãos, dedicados aos processos de fabricação de coisas e de manutenção dos serviços necessários à vida da Cidade. Corresponde ao campo somático, ou ao físico-etérico na visão teosófica.
A segunda categoria está dedicada a CORAGEM e tem como atributo a defesa e a organização da Cidade. São os administradores públicos, os soldados, os que se responsabilizam pelo suprimento de mercadorias necessárias, através do comércio e da logística, por exemplo. Corresponde ao campo da Psique, ou ao astral-mental na visão teosófica.
No degrau superior está a SABEDORIA, suportada pela razão, pelo pensamento abstrato e pela capacidade de resolução de problemas complexos, tanto materiais como mentais. Aqui estão os administradores de nível superior, que supervisionam os Guardiães e o planejamento estratégico dos processos produtivos. Corresponde ao campo da inspiração divina NOUS, ou ao mundo Causal na visão teosófica ou a Manas, na visão oriental.
A grande inovação imaginada por Platão não foi a diferenciação em classes, por que isso já existia desde sempre. Em sua visão utópica, as classes não teriam diferenciação de poder, riqueza e importância entre si. Todos estariam no mesmo patamar. Um sujeito que possuísse grande fortuna, mas, cuja índole fosse a de um produtor artesanal, não seria diferenciado de seus colegas por ser mais rico. Nem de um amigo seu que fosse da categoria dos Guardiães. A justiça seria aplicada por igual, até por que seus aplicadores seriam da categoria dos sábios, a quem deveria ser proporcionada uma educação especial, assim como lhes seriam proibidas a acumulação de riquezas e inclusive a geração de filhos. Aos olhos do mundo de hoje, este é um mundo completamente inviável e excêntrico. O mundo platônico, por exemplo, não concebe a luta de classes.
Uma Cidade ideal tem que ser governada por uma categoria especial de dirigentes. Sobre isso Platão falará detalhadamente, a partir do personagem central imaginado em Sócrates:  “somente o homem sábio tem a inteira idéia do bem, do belo e da justiça”.  Essa ideia de Platão, de que a sociedade deve ser governada por homens sábios, preferencialmente FILÓSOFOS, atravessou as civilizações modernas e hoje justifica até a tecnocracia.


A  EDUCAÇÃO  DOS  DIRIGENTES

A conclusão a que chegou o personagem Sócrates é que a Justiça se faz quando cada qual executa aquilo que lhe foi confiado pela Sociedade. Segundo esta lógica, ao professor cabe ensinar e ao estudante aprender,  sempre da melhor maneira possível. Conforme a proposição de Platão na divisão em classes,  o artesão produz bens e serviços, o guardião cuida da segurança e da organização da Cidade e aos sábios cabe dirigir e governar. O poder dos governantes deve vir de seu profundo saber, e não de sua posição familiar, ou riquezas acumuladas, ou capacidade de sedução das massas, ou alianças que consegue implementar, etc.  Uma classe especial de dirigentes precisa, pois, de uma educação especial. A este conceito elitista de Platão, o Marxismo gerou uma outra utopia no sentido contrário, de que a classe dos proletários é que deve dirigir a sociedade, extinguindo-se a propriedade dos meios de produção. Entretanto, Platão subverte, mais de dois mil anos antes, a moral conservadora que seria proposta pelo marxismo. Platão imagina a estranha prática que a classe dos dirigentes deveria compartilhar todos os bens materiais e as famílias, incluindo a coletivização dos casais de mulheres e homens, para terem relações sexuais indiscriminadas e livres, além de compartilharem entre si os filhos que poderiam ser gerados nessas relações. Conceitos assim foram considerados absurdos, já por seus próprios concidadãos e seguidores, incluindo Aristóteles.  
A educação dos Guardiães, de onde serão selecionados os dirigentes, deve ser mais aprofundada do que a dos Artesãos. Aos Guardiães não é permitido ter medo, por exemplo. Também devem ser condicionados a equilibrar e moderar os desejos, incluindo os sexuais. A literatura disponibilizada não deve falar de fracassos nem de derrotas militares. Jamais devem ser contemplados poemas que elogiem personagens maus, coléricos ou demasiado emocionais, para não influenciar a personalidade do futuro Guardião, que deve ser um homem ou mulher equilibrado e digno. A música deve ter papel importante e se deve evitar os cantos fúnebres ou tenebrosos, privilegiando-se composições equilibradas com bom ritmo, harmonia e letras construtivas. De preferência odes elogiosas aos deuses, às boas virtudes como coragem, resistência  e auto-controle, etc. Disciplina e treinamento militar, aliado a regime alimentar e prática da dialética. Os Guardiães também devem ser pobres. “Por terem ouro na alma, não será permitido que o tenham no plano físico”. Segundo Sócrates,  riqueza é origem de muitos defeitos, tais como luxúria,  vícios,  desleixo,  etc..   
As mulheres não devem ser discriminadas em nada. Se, ademais,  forem Guardiãs, devem ser educadas no mesmo nível do homem, apesar de serem intrinsecamente mais fracas. No entanto, algumas atividades e assuntos são tipicamente femininas, como tecelagem e culinária. Na escolha do campo de trabalho, também deve se levar em conta a peculiaridade de procriar e amamentar os filhos.
Os governantes devem zelar para que a Cidade não fique super populosa, mas, também para que não falte população. A melhoria genética deve ser uma preocupação social e, para isso, os acasalamentos devem ser incentivados entre os melhores homens e as melhores mulheres, para a geração de filhos sadios. 
Um dos interlocutores de Sócrates questiona se tal educação não estaria condenando à infelicidade os Guardiães, especialmente aqueles escolhidos para serem dirigentes. A resposta dura e seca é “SIM”. Este é o sacrifício que têm que fazer, em contra partida ao direito de dirigirem a sociedade. 
Perguntado se tudo isso não seria algo irrealizável, Sócrates explana que essa questão é irrelevante. A Cidade Perfeita, antes de existir, deve ser imaginada e planejada, como eles estão a fazer naquele momento. Uma vez concebida a IDEIA da perfeição, cabe à Sociedade buscar as formas de implementá-la da melhor maneira possível.   O ideal seria que FILÓSOFOS fossem os governantes, mas, diante da impossibilidade de assim ser, que se convoquem os homens mais sábios que a Cidade disponha, selecionados entre os melhores Guardiães. Cabe aos dirigentes garantir o processo educacional desde a tenra infância até a idade madura. Assim, cumprindo com seus deveres, todos terminarão seus dias em estado de felicidade, inclusive os Filósofos. 


DO MUNDO ‘SENSÍVEL’ AO MUNDO ‘INTELIGÍVEL’
A construção da Cidade Ideal é um longo processo de acumulação de conhecimento. Em sua utopia, Platão apresenta conceitos completamente radicais e revolucionários, tais como a dissolução da família no contexto da classe dos Guardiães, de onde seriam escolhidos os futuros dirigentes do governo. Haveria controle da natalidade e os casais seriam formados de modo a acasalar os homens e mulheres mais preparados. O trabalho se dá em condições de igualdade entre homens e mulheres, segundo as aptidões naturais de cada um. O sistema educativo deve ser aprimorado para formar bons trabalhadores, sem distinção de privilégios ou poderes especiais entre as classes. Deve-se incluir a formação que leve ao conhecimento da idéia do BEM como objetivo supremo da Cidade. Sobre o BEM, Sócrates explica o caminho para alcançá-lo, o qual definiu como a Dialética da Linha Dividida.


Tanto o conhecimento quando a verdade são coisas belas. Mas o BEM é distinto deles e os supera em beleza, assim como a visão permite ver a claridade do Sol,  mas não é a Luz. Podemos dizer que a visão é algo solar, por que só é útil junto com a Luz, mas não se confunde com a Luz nem é o Sol.

Assim como o sol confere credibilidade às coisas, através da Luz, a verdade essencial das coisas só é possível através do Conhecimento, caminho formado etapa por etapa a partir da Opinião, passando pela Crença, que pode ser elaborada como Entendimento a partir da Inteligência, até atingir o objetivo que é o BEM. De outro modo, podemos dizer que o CONHECIMENTO é a passagem do mundo das sombras (sensível) para o mundo das idéias (inteligível).

Para Platão, o BEM deveria ser o objetivo supremo de toda Cidade, por que nele estão as essências de todas as coisas, dado que o estado de ignorância decorre da incapacidade de percepção das coisas reais, motivada pelas Trevas e Sombras. O caminho da Ascensão ao mundo do BEM começa com o desenvolvimento de opiniões e conjecturas, que levam à formação das Crenças.  Para o esclarecimento da essência das coisas, é necessário acessar o Mundo Inteligível, constituído pelas Ideias e Objetos Matemáticos, que se formam a partir do conhecimento científico aperfeiçoado e testado pela Dialética, ou seja, no confronto desses conceitos complexos com as realidades que os cercam, estará a Verdade.

O BEM é o atributo que confere Verdade às coisas do mundo inteligível, assim como o SOL confere verdade às coisas do mundo sensível. Neste sentido, BEM e SOL são as duas faces de uma mesma coisa, a busca da felicidade. Portanto, este deveria ser o objetivo da busca empreendida pelos Filósofos.


Nem tudo que é belo, bom e justo dura para sempre. Tampouco a barbárie é eterna.

Alguns críticos modernos da filosofia de Platão, citam sua rejeição à Arte, conforme delineadas no apêndice de A REPÚBLICA (livro X), como uma falha no enxergar a função artística apenas no contexto da história antiga grega. Ali, Platão lamenta a influência particular da poesia de Homero na formação da juventude, por que ele, Platão, tem em foco apenas a construção do Novo Homem para a Cidade Perfeita. Teria faltado a ele a observação da Arte como um universo a mais da representação do mundo, além do “sensível” e do “inteligível”.  Penso que esse mundo é o da “contemplação”, onde o objeto artístico não tem outro valor senão aquele intrínseco na obra do artista.  Certamente, existe a Arte comprometida com uma ideologia, uma forma de ver o mundo e até com alguma religiosidade específica, mas, a mensagem em si não é a Obra, dado que a mensagem está limitada no tempo e no espaço, enquanto a representação artística em si é atemporal.






O MITO DA CAVERNA 
Foi a forma que Platão encontrou, pela boca do personagem Sócrates, para explicar a “Dialética da Linha Dividida”, ou o caminho que leva ao BEM a partir das Trevas, ou como atingir a Verdade a partir da Ignorância. Estando habituado às Sombras (Ilusão), o homem prisioneiro dentro da caverna da Ignorância imagina ser esta a única realidade existente. Com o passar do tempo, alguns indivíduos vão percebendo que há algo mais que projeções de imagens distorcidas dentro da penumbra da caverna, e resolvem investigar por conta própria. Acabam encontrando uma saída da caverna e se deparam com a luz, inicialmente tão forte que os torna cegos, porém, com o assimilar da luminosidade, os indivíduos começam a perceber a luz das estrelas refletidas num lago. Até finalmente poder encarar a luz do sol, sem cegar a visão. Uma vez libertos, esses homens podem ajudar os outros prisioneiros a libertarem-se também. A moral da parábola é “somente aquele que se liberta das ilusões, pode e deve governar os outros prisioneiros”.  Na visão platônica, este liberto que conquistou a Verdade das coisas é o Filósofo, e cabe a ele governar a Cidade Perfeita dos homens.                              


Em outras palavras, o caminho para a ascensão ao BEM está na conjunção dos atributos do Mundo Sensível, EMOÇÃO, VONTADE e AMOR, com os do Mundo Inteligível, CAPACIDADE MENTAL, USO DA RAZÃO e INTELIGÊNCIA.  É o casamento de Eros com a Ciência.




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Epílogo - DECADÊNCIA DA CIDADE PERFEITA

Na visão do personagem Sócrates, imaginado por Platão em “A REPÚBLICA”, a decadência das Cidades é inevitável, pois todas as coisas do mundo material são transitórias, tendo seu início, seu desenvolvimento e apogeu, e  inexoravelmente seu fim. Depois de ter atingido a perfeição, a Cidade tende a cair por conta de suas próprias contradições, a que são levadas devido às falhas humanas dos que as conduzem.

Em seu estado perfeito, o regime ideal para a Cidade, como foi visto anteriormente,  é a ARISTOCRACIA, o governo dos melhores. Os governantes são selecionados pelo seu profundo conhecimento e por seus méritos comprovados, formando-se uma Escola de alta performance que se mantém pelo tempo que resistir a uma influência nefasta, que a vai contaminar, o EGOISMO que gera a necessidade de obter reconhecimento e glórias pessoais.

Decorrente da decadência da Aristocracia, nasce o segundo tipo de governo, a TIMOCRACIA, o governo das honrarias. Platão chega a especular que uma das causas dessa decadência primordial poderia ser a mistura de raças, as descendências geradas entre homens e mulheres desiguais e fora do tempo certo, a prática excessiva da ginástica em prejuízo da música,  desarmonias que provocam divisões, ódios e inimizades, gerando por fim a guerra civil.

O passo seguinte da derrocada é a tomada do poder pelos mais fortes e mais ricos, ou seja, a OLIGARQUIA. Nela, os governantes vão se tornando cada vez mais avarentos, buscando acumular riquezas ao invés de virtudes. As leis são modificadas para atender necessidades que não são justas, a população pobre é excluída dos benefícios públicos, instalando-se a insegurança. A caminho da pobreza extrema, os excluídos começam a saquear e roubar. A educação das crianças é corrompida, a situação começa a ficar violenta, ameaçando a própria existência da cidade, de modo que a elite oligárquica não tem outra saída senão incluir o povo no compartilhamento do Poder, afim de acalmá-lo. Os cargos de governo passam a ser ocupados através de eleições gerais.

Como decorrência do enfraquecimento dos oligarcas, surge a DEMOCRACIA, onde qualquer cidadão pode pleitear qualquer cargo. O Poder deixa de ser inerente à Sabedoria, como na Aristocracia. As riquezas podem mudar de mãos de forma radical, as fortunas acumuladas podem ser rapidamente transferidas e o Poder já não é exclusividade dos ricos tradicionais, como na Oligarquia. Aparentemente, é um bom sistema de governo e agrada à maioria da população. A Liberdade torna-se o principal benefício do regime Democrático e será ela, a liberdade, a responsável por sua degradação, pois qualquer movimento excessivo numa certa direção, sempre irá gerar uma reação contrária, de igual força e potencial. Devido ao excesso de liberdade, surge a Anarquia, onde a ordem dos valores éticos e da autoridade é facilmente subvertida. Estabelece-se o confronto entre a minoria de ricos e a multidão pobre. No ambiente confuso da luta de classes, surge o líder carismático, que levará o povo a entronizá-lo no Poder.


Do poder popular impessoal e libertário, costuma surgir o encantador líder que que implantará a TIRANIA. Aos poucos ele vai cercando-se de auxiliares entre os indivíduos mais espertos e sedentos por riquezas. Com medo de vir a perder o poder conquistado, vai comprando mercenários para protegê-lo, o que o torna cada vez mais isolado do povo que o tornou poderoso. Assessora-se cada vez mais de pessoas que ignoram as virtudes, buscando apenas vantagens pessoais. Esse grupo desqualificado em termos éticos acaba ocupando todos os espaços e, para evitar possível concorrência, passa a usar poderes indiscriminados e eliminar os adversários. Traição e suborno passam a ser práticas correntes, gerando um governo baseado na corrupção praticada em todos os níveis. Todos viram prisioneiros do sistema, incluindo o Tirano mor,  pois a ninguém é garantida a segurança de seus postos. 

Nessa Cidade, enfim, todos são INFELIZES. 



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ELOMAR




Meu segundo contato com o ídolo não foi muito alentador. Ele estava saindo de uma agência do Banco do Brasil no centro de Vitória da Conquista (BA). Pensei comigo:

--- Então ele não é esse místico perdido nas águas do rio Gavião!

Não era.

Conversando com as pessoas da cidade, cheguei a conclusão que ELOMAR é um cidadão comum, só que de uma raridade inestimável. Poderia ser um arquiteto endinheirado, mas, enquanto cursava o aprendizado para ser planejador do conforto da elite bahiana, este conterrâneo de Glauber Rocha, tão protestante anti católico religiosos quanto a estranha maioria de sua cidade, dedicou-se a expressar o som de sua origem. No início dos anos setenta, Elomar já era figurinha carimbada no meio cultural de Salvador.

O primeiro contato foi em 1973, com a audiência do seu fantástico álbum "Na quadrada das águas perdidas". Em 1976, por aí, nossa relação se aprofundou, quando ele já era famoso e foi fazer um show no teatro Guaira, em Curitiba.  Nós, estudantes do centro de ciências sociais da Universidade Federal do Paraná, fomos ao seu hotel, convidá-lo para uma conversa com os estudantes e sua possível participação nas manifestações de primeiro de maio, que naquele ano nós estávamos corajosamente empreendendo na cidade industrial de Curitiba, apesar dos sindicatos pelegos que iriam participar das festividades oficiais do estado, realizadas no campo de futebol do então Clube Atlético Ferroviário, atual Paraná Clube. Nós fomos à manifestação, onde 50 gatos pingados ocupavam a praça vazia. Todos ficaram em suas casas descansando, ou foram para a festa da pelegada. Afinal, o que temíamos não aconteceu. Não apareceu polícia nenhuma, a não ser alguns agentes disfarçados do SNI, DOPS e DOI-CODI, a gravarem os nossos discursos insensatos. 

Elomar nos atendeu com muita educação naquela véspera, mas, foi duro na resposta: "Meus amigos, vocês querem jogar fogo no dragão. Só que o dragão quer mesmo é mais fogo. Por isso, não contem comigo para essa manifestação. Vocês não sabem ainda, mas, o meu mundo é outro!"

Agora, eu acho que sei ... 

domingo, 9 de agosto de 2015

O KARMA nas tradições religiosas


escolher, seu, karma, muitos, portas, caminhos, destino, destino, sorte - csp18734633






























Existe uma palavra no budismo indiano, DHARMA, que significa "lei natural". A tradução literal seria "aquilo que se sustenta e se mantém". O Dharma também é traduzido como a lei divina atemporal, eterna, que baliza todas as coisas. Para simplificar, dizemos que é a lei sagrada sob a qual todas as coisas estão dispostas, inclusive do ponto de vista individual. Isso por que o Dharma de uma pessoa pode ser diferente de outra. Existe um caráter universal na Lei, mas também uma particularidade específica de um indivíduo, o que chamamos no budismo como a forma de ser daquele indivíduo, segundo o estado atual de sua evolução espiritual. Isso fica claro no diálogo entre Krishna e o guerreiro Arjuna, no livro épico védico Bhaghavad Gitã. Nele, Arjuna recebe instrução sobre a sua natureza de guerreiro, que tem a obrigação de matar os inimigos na guerra, o que seria em princípio um ato anti ético. Krishna lhe explica que se o seu Dharma pessoal é ser guerreiro, então que Arjuna procure fazê-lo de maneira leal e bem intencionada, cumprindo com eficácia e precisão o que dele se espera, até que o caminho evolucional, nesta ou numa próxima encarnação, o coloque em outra circunstância. 

Todo comportamento que entra em choque com o Dharma é considerado desvio de conduta e significa KARMA. Este é outro termo em sânscrito, que significa "ação", derivada da relação existente entre CAUSA E EFEITO. Ou seja, a toda CAUSA corresponde um EFEITO, a toda AÇÃO corresponde uma REAÇÃO. 

Segundo a mestra de Yoga Emilce Shrividya Starling "A palavra karma vem da raiz sânscrita "kr" que significa fazer ou agir e do sufixo "ma" que significa efeito. O significado literal de karma é ação. Assim, realmente fazemos os karmas e colhemos seus frutos. É a lei de ação e reação. É a lei fundamental da reencarnação. É uma lei interessada em nosso aprendizado. Essa lei faz com que a conseqüência venha sobre nós para avaliarmos. A toda ação corresponde uma reação, inexoravelmente. Às vezes, uma ação só vai se refletir em outra vida, ou anos mais tarde, ou imediatamente."

No Budismo, não é uma lei de punição, e sim de educação, para vermos nossos erros e defeitos e trabalharmos no sentido de corrigí-los, para fazer cumprir o nosso Dharma, condição essencial para o aprendizado evolucional. Portanto, trata-se de uma lição que temos obrigatoriamente que aprender, mais cedo ou mais tarde. 

Esquema ilustrativo da relação entre Dharma e Karma no budismo



KARMA NO CRISTIANISMO


A religião cristã renega tanto o Karma quanto a possibilidade de reencarnação. Segundo a Bíblia Sagrada dos cristãos, em Hebreus 9:27 , "Como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo...” , eles acreditam que o espírito vem de um plano incompreensível, não material, e uma vez encarnado participa de sua vida enquanto ser humano. Depois de morto, o corpo físico retorna ao   mundo virtual, aguardando a volta de Jesus Cristo, o filho de deus, que, ao lado do Pai todo poderoso, fará o julgamento individual de casa pessoa. Os que forem aprovados, sentarão "a direita do Pai", e os que forem condenados, queimarão eternamente no fogo do inferno. Apesar do absurdo desse raciocínio, é a principal verdade religiosa que permanece na mente ocidental, reafirmando o dogma que o Deus da religião cristã seja essa criatura vingativa e cruel. Além disso, o Jesus Cristo é considerado um cordeiro de deus, à moda judaica, que doou seu sangue para lavar os pecados da humanidade, passados, presentes e futuros. O resultado disso é a imensa culpa que os cristãos carregam e nunca terão plenamente suas responsabilidades amenizadas, por ser absolutamente impossível resgatar essa dívida de sangue. Das religiões, é a mais cruel e sangrenta. Em seu nome, foram cometidas atrocidades sem limites, inclusive a ocupação da cidade sagrada de Jerusalém, em cujas ruas, segundo relatos dos próprios cristãos, corriam enxurradas de sangue árabe.


KARMA NO ISLAMISMO

O Islamismo é a segunda maior religião do planeta. Por incrível que pareça, há quase dois bilhões de pessoas que professam essa fé religiosa, atrás apenas dos tres bilhões de budistas. Portanto, para os cristãos ocidentais que se julgam os donos da verdade, esqueçam seus sonhos de onipotência, principalmente os cristãos norte americanos, que só vêm seu Jesus Cristo ideologicamente imaginado pela frente. Talvez o Islã seja a religião que mais pratica o sentido do Karma como pecado. É famoso o exemplo de que nos países árabes, o roubo é punido com a amputação da mão do ladrão. É a expressão máxima do julgamento a que estão todos sujeitos, na medida em que os indivíduos são servos do Senhor Alá, o supremo, representado na Terra por seus sacerdotes. A pena para um pecado capital, como entendidos os crimes de sangue, por exemplo, é a morte. No entanto, mais sério do que o crime representado por uma contravenção de sangue, a devoção a outros deuses é ainda mais grave. Os cristãos herdaram dos judeus os DEZ MANDAMENTOS.  Pois, no islamismo, esses mandamentos são SETENTA. Nesta lista, tem de tudo.`É pecado não lavar o órgão sexual, masculino ou feminino, depois de urinar. Ali na lista também consta que o Homossexualismo está no mesmo nível do Assassinato.  Pois é, nesta altura do campeonato, sou obrigado a retirar a censura que fiz lá atrás sobre o caráter de crueldade do cristianismo, kkk. 

KARMA NO ESPIRITISMO

Helena Bravatski disse certa ocasião, referindo-se a seu antecessor Alan Kardek, que o espiritismo é "um cristianismo aguado". Isso por que o pensador e místico francês não ousou enfrentar o catolicismo predominante em seu país, ao trazer para o ocidente os conceitos fundamentais do KARMA  e da REENCARNAÇÃO. A doutrina espiritista foi a que melhor entendeu a mensagem de Jesus Cristo, no sentido de que a "caridade" é a expressão maior do amor nesta era de Peixes, que está por terminar.  A mensagem cristã falhou em seu propósito de fazer avançar a humanidade, mas ainda é o valor máximo religioso no mundo ocidental e materialista. O espiritismo kardecista imagina a existência de um certo componente espiritual que define a alma, à qual eles chamam de "perispírito", que seria o equivalente aos corpos astral e mental como entendidos pela teosofia budista. Para eles, o karma fica acumulado neste nível e sua reparação se dá pelo amor fraternal. A dor, física ou espiritual, é um processo através do qual se pode sublimar os erros cometidos no passado, na mesma proporção dos males causados a outras pessoas ou ao meio ambiente.   

KARMA NA ERA DE AQUÁRIO

A cada dois mil anos, aproximadamente, a humanidade é administrada por um Avatar diferente. O período que ora se encerra, o cristianismo, foi governado por Jesus Cristo, e deveria ter sido a era do amor fraternal. Nâo foi... Várias outras eras falharam em seus propósitos. Houve um período na antiguidade, em que a Terra estava protegida por grandes seres espirituais. Na Grécia se desenvolvia uma civilização de alta densidade, onde se sobressaia a inteligência de Pitágoras, ao mesmo tempo na Índia se desenvolvia a suprema sabedoria do Bhuda, que se iluminou a partir do indivíduo pessoa  física representada pelo príncipe Sidharta Gautama, enquanto na China o imperador recebia conselhos de ninguém menos que o sábio Confúcio. Um dos imperadores da Índia desfaz seu exército, o Egito é uma ilha de desenvolvimento científico e filosófico, brilham os reinos do Império Persa e na América dá-se o apogeu dos astecas. Vejam que o mundo já foi mais desenvolvido do que a barbárie de hoje.

Dizem que a Era de Aquário está chegando para dar uma outra chance ao planeta. Quando eu atuava como voluntário no atendimento a pessoas em carência de afeto e energia vital, via chegarem jovens adolescentes cujas luzes brilhavam intensamente, apesar do suposto desequilíbrio que aparentavam. Os místicos dizem que se trata de seres com a substância rubi em suas energias vitais, pessoas destinadas a construírem o novo mundo. Isso vai levar ainda muitos séculos, não é para a nossa geração, nem a de nossos netos. Mas, que um dia virá, os místicos da "nova era" não têm dúvida. Algumas linhas derivadas da Teosofia chegam a acreditar que o Brasil será o centro da quinta raça, aquela que fará a humanidade dar um salto de qualidade sem precedentes...!












sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Karma, Dharma e a utilidade da Filosofia.





FILOSOFIA é mesmo algo intrigante. Não produz nem faz parte do processo produtivo de qualquer bem material. Apesar de sua matéria prima ser o mundo e os seres humanos que o habitam, não há um produto final confiável, ou minimamente comprovável cientificamente. Sendo apenas pensamentos e intenções, não é possível testá-los em laboratórios, tampouco é material pesquisável empiricamente, que possa formar um quadro consistente através de alguma série histórica. 

A própria definição de FILOSOFIA é tão volúvel, que Bertrand Russel afirma no site ATEUS.NET que "A definição de “filosofia” variará segundo a filosofia que adotarmos".   Este mesmo mestre e filósofo famoso, afirma que a tarefa principal da Filosofia é a de corrigir as contradições e incertezas das crenças humanas. Simples assim!   Por isso eu, que já sou descrente por natureza,  ouso colocar um complemento na frase: "na medida de suas possibilidades...". 

A FILOSOFIA comprovou que serve pelo menos para uma coisa: Especular sobre a possibilidade de obter respostas para qualquer questão inerente ao ser humano e sua condição natural de EVOLUTIVO. Principalmente para as tres perguntas chaves da humanidade.

QUEM SOU
DE ONDE VIM
PARA ONDE VOU 

Estamos habituados a entender que os filósofos foram sempre gregos, principalmente os da antiguidade. Parafraseando o nosso futebol, este grupo que segue é o  G4 da série "A" do campeonato grego de filosofia, segundo consta nas tradições dos estudiosos do assunto: 

Pitágoras .....+ 496 a.c.
Sócrates ......+ 399 a.c.
Platão ..........+ 347 a.c.
Aristóteles ...+ 322 a.c.

Ao longo de mais ou menos dois séculos, produziu-se o pensamento filosófico que iria influenciar o mundo inteiro dali pra frente. O pensamento grego antigo nos chegou através dos Romanos, que também nos legaram o Cristianismo. Por isso, nosso pacto civilizatório do mundo ocidental se chama "Judaico-Cristão", por que os costumes e a moral dos países dominantes no planeta nesta Era, estão alicerçados nas idéias contidas no livro Bíblia Sagrada, tanto na parte antiga, supostamente escrita pelos judeus ortodoxos, como na parte nova, supostamente escrita pelos discípulos de Jesus Cristo, parte esta denominada pelos cristãos como NOVO TESTAMENTO, o novo modelo religioso em substituição a todos os anteriores. Devidamente endossado pelo Império Romano, que iria impor a igreja nos primeiros séculos a todos os seus súditos, do sul da África ao Polo Norte,  dar-lhe a organização e hierarquia apropriada, definir os primeiros dogmas e eleger os primeiros Papas.   

O cristianismo virou religião oficial do Império Romano em 380 d.c., consolidando um processo iniciado em 320 d.c. pelo imperador Constantino. Antes desse período histórico, que corresponde a decadência da civilização romana, o mundo era politeista, ou seja, o culto aos deuses era livre e cada qual escolhia os objetos de sua preferência, a quem gostasse de adorar, fossem vacas sagradas, gatos, estrelas, sol, antepassados ou coisas imaginárias. Nessa época, que coincide com a República Romana (509 a.c. até 27 a.c.), até os primeiros 300 anos do Império Romano, a base de pensamento filosófico, político e religioso era a civilização da Grécia. Por isso, também se diz que a nossa herança, além de judaico-cristã, é GRECO-ROMANA. 

A filosofia Greco-Romana, ao lado do Cristianismo, reinaram absolutas nos 1500 anos que nos antecedem no mundo ocidental. Em parte pela distância física que separava as tradições culturais diferentes existentes no planeta,  em parte devido aos conflitos e choques de civilizações. Um bom exemplo é o isolamento do mundo árabe, sempre em conflito com o cristianismo. Os asiáticos também viveram sempre num mundo particular, isolados e praticamente incomunicáveis com o ocidente. A partir de 1800, as coisas começaram a mudar.




Em 1785 chegava com grande repercussão em Londres a primeira versão em inglês do livro Bhagavad Gitã (a canção divina), o epílogo da epopeia Mhabharata, uma coleção de contos que contém toda a cultura e princípios da religiosidade Védica (da Índia). 



Esta civilização foi contemporânea da Democracia Grega e da República Romana, por volta do século quinto a.c.   Diferentemente do conceito cristão de JUÍZO FINAL, onde o Deus Pai estaria comandando um julgamento de toda a humanidade, a filosofia religiosa Budista, baseada nos princípios védicos, contempla o fenômeno da AÇÃO e REAÇÃO, onde o equilíbrio será sempre garantido. Aqui, desaparecem os significados de PECADO e PUNIÇÃO, entrando em seus lugares os conceitos de DHARMA e KARMA. O primeiro termo representa a Lei, aquilo que é adequado ao ser humano em seu momento e circunstância histórica, segundo um conjunto atemporal de regras éticas e morais. Já o Karma é o comportamento que se desvia da regra justa, ocasionando um conflito que deverá necessariamente ser corrigido, nesta ou em outras vidas futuras.  Então, surge outro princípio básico do Budismo,  a REENCARNAÇÃO do mesmo espírito em várias versões físicas ao longo do tempo, até que um evento final denominado ILUMINAÇÃO encerre o ciclo de encarnações. 


Relação entre Dharma e Karma



O BUDISMO 

Logo no primeiro sermão após Sidharta Gautama se iluminar, transformando-se no Bhuda, ele ensinou a seus discípulos as quatro verdades supremas da existência humana.  








Primeira Verdade: O SOFRIMENTO EXISTE  O sofrimento é inerente à condição humana, mas ele é transitório, ou seja, tem começo, meio e fim.
Segunda Verdade: A ORIGEM DO SOFRIMENTO ESTÁ NO EGO A causa do sofrimento é o apego às coisas, tais como bens materiais, crenças irremovíveis ou rígidas demais,  ideais centrados no egoismo, enfim, a necessidade de satisfazer os nossos desejos nos conduz à infelicidade. A causa do sofrimento também pode ser entendida como a Ignorância sobre si mesmo e as verdades atemporais.
Terceira Verdade: É POSSÍVEL ACABAR COM O SOFRIMENTO  É possível se libertar do sofrimento causado pelo apego ou pela ignorância. Isso pode ser obtido a partir do crescimento espiritual e promovendo um karma positivo em nossa vida, ou seja, buscar o cumprimento de nosso Dharma.
Quarta Verdade: O CAMINHO DO MEIO SUPERA O SOFRIMENTO  O método que leva ao crescimento espiritual e a geração de karma positivo é o que Bhuda chamou "Caminho do Meio", também conhecido como o Nobre Caminho Óctuplo de Buda.
Nessa doutrina, a palavra "sofrimento" deve ser entendida como sinônimo para "insatisfação pessoal", ou aquele desconforto existencial, onde a pessoa pode ter coisas e riquezas, mas não encontra auto realização em sua experiência vivencial.  Segundo o site "Espiritualidade nos Negócios", “A visão de mundo budista é holística: acredita que aquilo que alivia nosso sofrimento também alivia o sofrimento dos outros”. Nesta jornada pelo “Caminho do Meio”, o SER HUMANO consegue superar três grandes desafios básicos, melhorando como INDIVÍDUO livre de GANÂNCIA, AVERSÃO E IGNORÂNCIA. 
dharma wheel



O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO




Os oito princípios orientadores de Buda que consistem no "caminho do meio", são os seguintes:
1. Entendimento Correto Em princípio, temos que partir do princípio de que nossa compreensão das coisas é limitada. Se fosse o contrário, se compreendêssemos plenamente as razões de nossa caminhada e o que de nós se espera, já saberíamos tudo e não precisaríamos de nenhum guia. Por isso, a principal missão de nossa procura é a capacidade de enxergar as consequências da Lei da Causa e Efeito SOBRE NOSSOS ATOS COTIDIANOS, e visualizar o mais claramente possível a nossa missão de vida, o nosso Dharma.   

2. Pensamento Correto É o direcionamento de nossas intenções,  de acordo com nossa verdade interior, buscando superar a hipocrisia e a falsidade. É o foco que devemos dar aos nossos pensamentos, objetivando sempre a intenção de não causar danos a outras pessoas, outras espécies ou ao meio ambiente. 
3. Fala Correta É o cuidado de tratar os outros com respeito e consideração, sem utilizar palavras ásperas, rudes ou agressivas. A FALA CORRETA corresponde a não mentir, não ser sarcástico, ser compassivo ao falar, ser encorajador e não ferir os sentimentos de outra pessoa. Às vezes, é melhor se calar, do que incutir negatividades na fala, evitando a difamação e a fofoca. Devemos ter em conta que grande parte dos Karmas, são gerados pelas palavras. 
4. Ação Correta Pensamento Correto diz res­pei­to ao fun­cio­na­men­to da mente. Fala Correta refere-se a utili­za­ção da lin­gua­gem. Ação Correta abran­ge tudo o que faze­mos em relação a nosso comportamento pessoal e o comprometimento em não causar danos ou fazer algo que seja prejudicial aos outros. Significa executar da melhor forma possível as con­clu­sões cor­re­tas obtidas por meio do Pensamento Correto e do Entendimento Correto.
5. Modo de Vida Correto Equivale a ganhar a vida de modo correto. O tra­ba­lho que faze­mos neste mundo ­produz mui­tas sementes Kármicas, que podem ser atenuadas seguindo-se os preceitos do Caminho do Meio, o qual nos ensina a evitar extremos em tudo – equi­lí­brio e dis­cer­ni­men­to são aspec­tos fun­da­men­tais da sabe­do­ria. Devemos viver a vida guiados por uma bússola ética e moral, deixar os valores e princípios guiarem nossas ações e intenções. Você deve evitar empregos ou situações que violem seus valores éticos. 
6. Esforço Correto Procurar sempre mudar para ­melhor, tor­nar-se mais sábio e corre­to. Com Esforço Correto, enten­de­mos ­melhor o nosso Dharma a cada dia que passa e aprende­mos a apli­cá-lo em nossa vida. Requer tempo e paciência. Resulta em pensamentos claros e na capacidade de visão ampla  dos fatos.
7. Concentração Correta Viver no “aqui-agora”, desligar o botão do piloto automático e enxergar nossa própria essência. Para tanto, se faz necessário desfazer laços que eventualmente nos prendam ao passado, bem como não centrar demasiadas espectativas às idealizações sobre nosso futuro. Esta consciência nos ajuda a enxergar o mundo como ele verdadeiramente é.
8. Meditação Correta Trata-se de um mergulho interno para o reencontro de nossa essência. É parte fundamental do caminho para a sabedoria. Somente quando atingimos um estágio elevado de consciência, alcançamos o distanciamento e desapego necessários para se tomar decisões corretas e escolhas conscientes.