sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A MAIORIA SILENCIOSA SE OMITE DIANTE DOS PODEROSOS






“Por que queres abster-te da ação? 
Não é assim que a tua Alma conseguirá a liberdade. 
Para chegar ao Nirvana, é preciso chegar ao conhecimento de si próprio. 
E o conhecimento de si próprio é filho de ações caridosas. 
Tem paciência, como quem não teme falhar, nem procura triunfar. “

(HELENA P. BLAVATSKY, em A Voz do Silêncio, 1899)



Todos dizemos que os 1,5 bilhão de muçulmanos no planeta são gente boa, que só querem rezar ao seu Alah de forma pacífica. No entanto, uma quantidade ínfima de militantes fanáticos e violentos é capaz de praticar os atentados que vimos em Paris há alguns dias, executados em nome de um Estado Islâmico que se instala no deserto entre Iraque, Síria e Turquia,   onde enfrentam bombardeios das maiores potências mundiais. Além disso, constroem uma rede teocrática com outros grupos assassinos que desestabilizam os frágeis estados nacionais africanos. O que fazem os supostos 99% de islâmicos pacíficos no mundo, incluindo a elite muçulmana, seus líderes políticos e religiosos ?  Observam.

Da mesma forma, se diz que os nazistas alemães eram um pequeno bando de malucos, liderados por um insano, que eram minoria extrema da gloriosa e culta nação germânica.    Mas, a maioria silenciosa alemã achou bom que estes malucos tivessem resgatado o orgulho alemão perdido na Primeira Guerra Mundial. E achou melhor ainda as suas promessas de futuras glórias e bem estar, embora rissem da fantasia do reino de mil anos. Quantos seres humanos foram necessários morrer na Segunda Guerra Mundial, antes que a máquina de guerra nazista fosse destruída? Cerca de 85 milhões.  

A Rússia era um enorme a atrasado país, religioso e bovinamente subordinado ao comando dos czares, quando os soviéticos de Lênin fizeram a revolução. Até que Stálin estabilizasse as lutas internas e colocasse o país em condições bélicas de competir com os Estados Unidos, 20 milhões de soviéticos foram assassinados pelo Estado. No outro front comunista de proporções continentais, a China, a consolidação do poder desde Mao Tsé Tung até os dias atuais, incluindo colocar o país literalmente de pernas pro ar na Revolução Cultural, custou aos chineses 70 milhões de mortos por motivos políticos. 

Estes poucos exemplos mostram que a maioria silenciosa é irrelevante, quando se trata de tomar o poder e fazer com ele o que os poderosos têm feito ao longo da história. A democracia, como a conhecemos desde os tempos da Grécia antiga, é muito útil para se chegar ao governo e, depois dele, ao Poder. Mas, por si só, a democracia é insuficiente para manter a sociedade justa e organizada, em torno dos ideais de convivência pacífica entre diferentes visões para a gestão do Estado, enquanto entidade distribuidora de justiça, renda e cidadania.  Platão já dizia que a Democracia traz dentro de si própria os germes de sua destruição.  Um deles é a forma dócil com que a maioria silenciosa se deixa seduzir por lideranças messiânicas, bonitas, bem falantes ou que fazem promessas sem lógica, inatingíveis. Collor ganhou sua eleição à Presidência da República em 1989, por que basicamente era um moço bonito, que prometia acabar com a “política”, caçar “marajás” e outras asneiras, além, claro, do auxílio luxuoso do grande capital financeiro, industrial, comercial, agrícola e o escambau. Por fora, ainda era o candidato preferido da Globo, que editou o último debate entre ele soberbo e um barbudo Lula, com ar de cansado, balbuciando respostas incompreensíveis.  Como quase sempre acontece com líderes carismáticos sem pudor ou compromisso ético, Collor acabou como um grande tirano. Mas, só foi apeado do Poder por que não o dividiu com outros oligarcas, confiando na sua liderança frente aos que ele chamava de “descamisados”, tentando transformar-se num novo Perón, ainda que lhe faltasse uma Evita convincente. Lula, por sua vez, já aprendeu com o ex adversário e, uma vez no Poder,  constituiu outro tipo de tirania:  o aparelhamento das instituições do Estado, em proveito de uma base militante mantida com recursos públicos, enquanto lança propostas de alianças políticas com forças de todo tipo e matiz político, desde que colaborem para manter no Poder o atual grupo político que o detém. Foi basicamente o que faltou a Collor, e é a razão pela qual as forças em torno de Lula resistem a tantos escândalos de corrupção e má gestão.  



Do ponto de vista religioso, a maioria silenciosa quer mais do mesmo. No ocidente, segue a religião do estado romano, transformada em oficial lá pelo século IV d.c., afim de permitir ao Império Romano sobreviver um pouco mais, uns “poucos mais” de cem anos.   A maioria silenciosa adora os discursos do Papa Francisco, mas não lhe ocorre perguntar que tipo de gestão ele está fazendo a partir do Vaticano. Ela não acredita que o Poder efetivo da Igreja Católica Romana está com os Cardeais e a Cúria Romana, e que, para mudar algo dentro da estrutura da maior igreja cristã, o Papa teria que fazer uma “limpa” geral. A maioria silenciosa não percebe que ele não quer ou não tem condições políticas de enfrentar esta questão, então, ele continua a fazer os mesmos discursos de sempre.  Na frente chamada Evangélica (antigamente se dizia Protestante), talvez seja até pior, pelo menos no tocante a manipulação dos praticantes, como clientes muitas vezes de um sistema perverso. 

Do ponto de vista político, a maioria silenciosa está quase sempre ao lado do Poder.  Terminada a Segunda Guerra Mundial, era difícil encontrar um cidadão que tivesse apoiado o Nazismo; quase todos se diziam vítimas e perseguidos, mas, como explicar a manutenção de Hitler no poder por tanto tempo? Como Mussolini conseguiu seduzir um povo milenar como o italiano? A ditadura portuguesa durou quase 40 anos. No Brasil, tanto o Estado Novo como a Ditadura Militar duraram cada uma cerca de 20 anos. É sabido que estes regimes foram cruéis torturadores de inocentes, que primeiro desciam o sarrafo, depois perguntavam o que queriam saber de seus interrogados, no entanto, quando se questiona cidadãos comuns que viveram estes períodos, é comum responderem que “não se sentiam incomodados”. E sobre as violências e atentados às liberdades e direitos individuais? As respostas costumam ser chocantes: “A gente não se metia, então, não tinha por que se preocupar”.  É o típico posicionamento político da maioria silenciosa: não se envolver. 



Mesmo no lado dos mudancistas, observa-se um comportamento sectário. Por exemplo, há um movimento político que pede a intervenção dos militares para assumir o sistema de governança no Brasil. Ainda que esse pedido venha disfarçado como “intervenção militar constitucional”, parece a mim, pelo menos, que eles querem o velho e manjado “golpe militar”. Ao perceberem que os atuais comandantes das forças armadas não estão dispostos a essa atitude, o grupo intervencionista passa a acusações ostensivas, algumas até ofensivas, de que as autoridades militares estão omissas “diante de um governo de ladrões”,  como costumam sutilmente fazer suas propagandas disfarçadas de acusações genéricas. Neste caso, não há qualquer diferença de atitudes quanto ao tipo de intervenção política, não importando se quem a faz é de direita, de esquerda, renovador ou reacionário.  A maioria silenciosa continua indiferente, por isso mesmo, nenhum movimento de mobilização política tem surtido efeito no país nos últimos anos. De forma geral, os cidadãos que se envolvem na política são os que tomaram posição por um lado que já atua de modo organizado, defendendo causas próprias. Neste caso, é chover no molhado. Nada virá de novo deste front. Nenhuma consciência política mais desinteressada, nenhum tipo de intervenção orientada ao aprimoramento da representação popular, para melhorar o nível do parlamento, que nas democracias é o espaço destinado a resolver as controvérsias e disputas, encaminhando decisões que atendam aos interesses consensuais da Nação, enquanto povo organizado. 

Teoricamente, a maioria silenciosa se pronuncia através do voto. Não é suficiente. De nada adianta escolher um candidato para fazer a gestão da cidade, do estado ou do país, ou escolher o seu representante no parlamento, e depois abandoná-lo à própria sorte ou deixá-lo livre para fazer o que bem entender com o voto “carta branca”. Em síntese, o que falta na nossa sociedade é participação política com consciência e qualidade. As maiorias silenciosas necessitam de preparo para exercer esta complexa missão. A questão efetivamente importante é se isso interessa a mais alguém, além dos idealistas e distraídos. 


terça-feira, 10 de novembro de 2015

MEMÓRIA HIPPIE


MEMÓRIA HIPPIE


BOB DYLAN e o VALETE DE COPAS

Robert Zimmermann foi um garoto pobre, judeu, criado numa aldeia junto à gelada fronteira canadense. Suas perspectivas na vida eram a mesma de um auxiliar de lavação de pratos num restaurante, sua primeira ocupação. Cedo percebeu isso e abandonou a aldeia judaica, para caminhar sem destino pelas trilhas e estradas norte americanas. Qualquer coisa era melhor do que aquilo que a vida lhe prometia. Dylan, como se auto apelidou em homenagem ao poeta inglês Dylan Thomas,  foi fundo na alma norte americana e compôs vários countries em sua longa carreira. São músicas de cow-boys, que ele pesquisou intensamente durante anos. Ele foi um craque na execução do estilo Chautauquia, que significa o cantar de peregrinos que andam pelas estradas da América do Norte, compondo poemas e contando causos através da música, em longas histórias sobre acontecimentos sem importância, porém representativos da cultura caipira dos Estados Unidos. Um de seus melhores momentos foi a criação do álbum "Sangue nas trilhas", de 1975.  Desse álbum, Dylan nunca permitiu o relançamento ou postagem daquelas músicas em qualquer mídia social. O disco em vinil, única edição lançada, está esgotado. Eu tinha uma cópia, mas alguém a levou. Espero que tenha feito bom proveito! Uma canção se destacou, como se fosse um longo filme, contando uma aventura do cotidiano do "far west". Devido a sua longa duração e complexidade dramática, ela está praticamente esquecida da obra do cantor, sendo muito pouco referenciada, mesmo entre os especialistas. Chama-se "Lily, Rosemary and The Jack of Hearts". No baralho, Jack of Hearts é o apelido da carta Valete de Copas.






Esta seção tem o propósito de resgatar as imagens sonoras da geração que imediatamente sucedeu aos beatniks. Destes, os HIPPIES herdaram o espírito aventureiro "on the road", mas não a raiva existencial que os caracterizava, a revolta contra tudo e contra todos, que resultou numa espécie de louvação ao mundo dos vigaristas, dependentes químicos e pequenos ladrões, onde Ginsberg e Kerouac buscaram inspiração. Os HIPPIES, ao contrário, celebravam a vida de um modo simples e contemplativo, praticando uma socialização primitiva, próxima dos ideais tribais, num estilo de vida nômade e junto da natureza.  


MILTON NASCIMENTO E GRUPO ÁGUA

No ano de 1976, Milton Nascimento era um dos maiores ídolos da juventude brasileira, sufocada pela ditadura militar. Havia apenas um ano, os torturadores do DOI-CODI tinham matado o jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog. Naquele tempo louco, explodia revolta no peito das pessoas que tinham alguma noção do que se passava no país, por que o resto da população vivia no obscurantismo absoluto, tendo informações através  do Jornal Nacional da Rede Globo, apresentado pelo pragmático e cada dura Cid Moreira.  
Milton Nascimento estava fazendo um show em São Paulo, quando se encontrou com os artistas do grupo chileno Água, originários de uma aldeia do deserto de Atacama, cujo nome é Caldera. Eles também estavam fugindo do terror em seu próprio país. Da reunião dos dois grupos, resultou uma das coisas mais belas da cultura sul americana.






















NOITES DE SAN FRANCISCO 

 Eric Burdon and The Animals


Quando penso que Elvis Presley era censurado na TV americana por que dançava rebolando os quadris, dou graças pelas mini saias das nossas amiguinhas de colégio. Roberto Carlos foi o brasileiro que mais se aproximou do espírito daqueles anos, quando cantou nossas gloriosas tardes de domingo e falou da dança de rosto colado, dos inesquecíveis romances que explodiam em nossos corações adolescentes. Os anos sessenta foram os anos do Rock and Roll e da contestação, das barricadas de Paris, das últimas manifestações civis possíveis contra a ditadura militar no Brasil, antes que a juventude desesperada pegasse em armas ou caísse nas drogas. Foi o tempo da queima diária de bandeiras pelos pacifistas nas ruas da América do Norte. O movimento hippie promovendo o verão do amor em San Francisco, Califórnia, para onde se dirigiam as multidões em 1969, cruzando a grande nação norte americana em busca de paz. Todos os que empreendiam aquela jornada se asseguravam de usar alguma flor presa aos cabelos, como dizia a canção do lider dos Mamas and the Papas. Ou escolhiam aquele lugar para passar o resto de seus dias, como na canção do gênio e santo Eric Burdon e seus britânicos radicais, que imigravam aos montes para a nova terra prometida do amor e da paz.






MODDY BLUES

No começo dos anos oitenta, havia uma insatisfação com a música de discoteca, aquela que havia substituído o Rock and Roll dos anos setenta. Ninguém mais aguentava dançar tanto tempo, no mesmo ritmo e com as mesmas musiquinhas sem sentido, apenas para balançar, dar as sacudidelas necessárias para entrar no ponto de alucinação, e pronto!   O álbum revelação de 1981 chamava-se "Viajante de Longa Distância" e mostrava o caminho do que seria a música de qualidade no futuro. A união do rock com o blues. E o misticismo da Nova Era por detrás da depressão existencial.  Esperança nova no ar! Trazia na capa uma cena imaginária, onde um artista se apresentava a um pequeno agrupamento humano, em alguma aldeia perdida no meio da imensidão medieval.  Ficava clara a ideia de que a cultura era espalhada de forma pessoal, de modo que a presença de um ser espacial não poderia ser ignorada. Ficava a imagem de que este ser viajante especial vinha trazendo algo diferente. Agora, entrava no ar certas coisas mais fundamentais, alguns questionamentos mais profundos, vindos de quasares mais distantes no cosmos, numa busca mais sutil por emoções mais sensíveis e refinadas.  


Pelo lado político, trinta anos atrás, o planeta estava sob a ameaça de uma guerra nuclear. O fim anunciado da União Soviética encontrava certos aparelhos stalinistas ancorados em regimes da ásia central e do norte da Europa. Por outro lado, uma permanente cristalização norte americana em torno de valores pseudo cristãos conservadores, com Ronald Reagan à frente de uma coalizão de direita, provocava calafrios em pessoas de inteligência e sensibilidade suficiente para entender o que estava se passando.   Felizmente nos safamos daquilo que muitos artistas classificaram como o risco real do fim da raça humana no planeta, a guerra nuclear. Graças à nós mesmos e nossa espiritualidade, nos safamos de mais aquela! 


Pat Metheny e sua "nova peregrinação"

A história dos guitarristas de jazz começou a mudar com um rapaz nascido em Kansas, 1954, chamado PAT METHENY. Quando ele completou quinze anos de idade era 1969 e rolava o Festival de Woodstock. Ninguém poderia permanecer indiferente diante do som que faziam Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Um negão de Seatle e uma branca do interior do Texas davam a nota do que seria o novo som da juventude seguidora do deus chamado Blues. Neste ano Pat Metheny deu adeus à inocência e começou a conviver com os grandes músicos nas bandas de jazz-blues norte americanas, onde aprendeu tudo que um garoto que NÃO amava os Beatles e Rolling Stones poderia aprender. Segundo a crítica especializada, ele passou os dez primeiros anos de sua carreira reinventando o som do jazz para guitarristas de sua geração, até que em 1979 lança sua primeira obra prima, aquela que sem dúvida o deixará inscrito no mural da história do jazz. A palavra de origem indígena "chautauqua" vem sendo utilizada há mais de quatro mil anos pelas tribos do grupo linguístico Cherokees. Significa literalmente "peregrinação". Mas, não qualquer aventura em torno de uma viagem mística ou estudiosa. Trata-se de ir ao fundo de todas as coisas, com a coragem para ver o que se apresentar, sem pré conceitos, concepções ou visões de mundo já conhecidas. Seria a capacidade de admitir que “o verdadeiro veículo que podemos conduzir é  ‘nós mesmos’.”  Trata-se, portanto, de uma aventura filosófica. Há uma cidade e um lago com esse nome no oeste do estado de Nova Yorque, perto da fronteira com o Canadá, onde floresceu um movimento religioso há 150 anos. Era conhecido no meio do povo comum como "novos batistas", por que, embora baseados no cristianismo, mesclavam crenças e comportamentos inspirados em outras fontes, desde a tradição religiosa indígena até mitos pagãos.





BOB DYLAN - ETERNAMENTE JOVEM

Eu considero o cantor Bob realmente muito inferior ao poeta Dylan, codinome que usou para inspirar-se no inglês Dylan Thomas, seu contemporâneo, que escrevia versos inspirados sobre a vida das pessoas simples e dos caminhantes pelas estradas do mundo, sem nenhuma preocupação de ordem política ou social, temas que o discípulo Bob acabou por incorporar ao seu repertório. O Dylan inglês morreu de alcoolismo aos 39 anos de idade, mas, o judeu norte americano está até hoje correndo o mundo e, aos 75 anos de idade, não consta estar programando alguma aposentadoria.  

Apesar de não ser um brilhante cantor, em algumas oportunidades Dylan canta com voz profissional, que, se não chega a ser um Elvis, pelo menos não deixa distância dos cantores do blues. Quando sua rascante entonação vocal se mistura com os poemas românticos ou épicos, não há como não se emocionar. Ouçam essa canção sobre ser eternamente jovem, que é uma ambição humana recorrente,  e me digam se não tenho razão!




NEIL YOUNG

Um dos grandes ícones da contra cultura norte americana é Neil Young. Este lutou efetivamente do lado underground da cultura. Enquanto Bob Dylan abandonava sua aldeia na fronteira com o Canadá e era recebido com serviço de cama e mesa em Nova Yorque, por sua namorada filha de bolivianos,  Neil Young teve que comer o pão que o diabo amassou em Los Angeles. Uniu-se a uma banda de drogados mexicanos e canadenses, completos representantes do sub mundo californiano, quando formaram a banda Cavalo Louco, que na minha opinião foi o melhor que o rock and roll produziu ao longo da história. O nome também remete a um famoso cacique indígena e o som de suas guitarras e baixos nunca foi igualado em tempo algum, excepto talvez por Jimmy Hendrix, mas, aí já não era rock and roll e sim uma mistura de blues, jazz, new wave e coisas extremamente complicadas do ponto de vista estético e musical.
Não que a música de Crazy Horse seja simples. Até acho que em parte eles se inspiraram nos longos acordes de Hendrix.  
Quando vemos um velho como Neil Young, que poderia estar em casa cuidando dos netinhos, apresentar-se ao vivo, sem qualquer disfarce, mostrando sua cara velha e vermelha de sol, desafiando a morte, isso é o espírito verdadeiro do Rock. E a quem disser o contrário, Raul Seixas virá puxar o pé nas noites insones de baladas românticas.






TELHADOS DE PARIS 
Nei Lisboa

Numa certa noite chuvosa de sábado, Nei Lisboa cantou essa canção em Floripa. Pouca gente da plateia formada por cidadãos brancos, gaúchos, de meia idade, se deu conta. Nei está longe dos tempos em que foi ídolo de uma juventude que gostaria de ter mudado o mundo, guru que foi da contra cultura que abençoou Porto Alegre a partir de 1978 até o fim da ditadura militar. Acho que aquela plateia que lotou o teatro de mil lugares é daquele tempo, mas, mudou muito. Ele não ofereceu a canção explicitamente em homenagem às vítimas dos atentados insanos, mas, eu penso que ele esperava isso do público. Não veio qualquer sinal de que tenham entendido. De qualquer forma, a banda que o acompanhava era simplesmente perfeita. Ele tinha o mesmo carisma, agora de cabelos brancos. Também perfeito nos vocais e no violão elétrico, Nei continua lúcido e transparente, consciente de que poderia ter sido um ídolo nacional do mundo de espetáculos, caso tivesse cedido às pressões das gravadoras. Cantando a versão de "Hey, Jude" numa novela,  por exemplo, o que ele recusou num tempo em que tudo girava em torno da televisão. Nos dias de hoje, Nei e seu legado poético-musical é um personagem praticamente desconhecido do grande público. 







CANTO DO POVO DE UM LUGAR
Caetano Veloso e Grupo Bendegó


João Santana é atualmente o marqueteiro político mais bem sucedido do Brasil, embora viva praticamente clandestino com a mulher num amplo apartamento de classe A, situado na região dos Jardins, próximo a Avenida Paulista, em São Paulo. Já ganhou oito eleições presidenciais pelo mundo, incluindo as três últimas realizadas no Brasil. Até a passagem do milênio, era apenas mais um poeta e músico baiano, meio hippie, meio maluco, ligado com o movimento de contra cultura em Salvador. Fez parte do antológico grupo Bendegó e participou da gravação da canção "Canto do Povo de um Lugar”, no álbum “Jóia” de Caetano Veloso em 1975. Cansou, como ele mesmo diz. Pra gente ver como o mundo dá voltas... e perdemos um promissor artista da "Era de Aquarius".




VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA
Raul Seixas / Paulo Coelho

Depois que conheceu Paulo Coelho em 1971, Raul Seixas pirou de vez. Entrou numa onda mística existencialista regada a muita maconha e ácido lisérgico, viagens alucinantes que renderam material artístico fabuloso. Em 1974, conceberam um espetáculo-experimentação-movimento ao qual deram o nome SOCIEDADE ALTERNATIVA. Uma multidão de jovens ávidos por novidades aderiu de imediato, a começar pelo Rio de Janeiro, onde se encontravam nos finais de domingo no Aterro do Flamengo, para verdadeiras orgias misturando literatura fantástica, música e drogas. As polícias entraram em estado de alerta e umas avisaram às outras, todas interessadas em saber que "sociedade alternativa" era aquela. Porém, quando o movimento resolveu se reunir num lugar mais escondido do grande público, o Jardim Botânico, entrou em ação a polícia política da ditadura. Os dois jovens artistas foram presos e torturados para esclarecer o tal "movimento", e, em seguida, esclarecidos os termos da tal "sociedade alternativa", foram gentilmente convidados a se retirarem do Brasil, como já tinha acontecido antes com outros artistas e intelectuais, entre eles Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Morais, Oscar Niemayer, enfim, a elite pensante e criativa do país. Em uma entrevista, Raul disse o seguinte: "Literalmente é choque no saco. Fui torturado mesmo no governo Geisel. Me pegaram no Aterro do Flamengo, me botaram uma carapuça e fiquei três dias num lugar desconhecido. Aí vieram três pessoas: um bonzinho, outro mais inteligente - que fazia as perguntas – e um mais ‘agreste’, mais violento. Depois me colocaram num aeroporto e fui direto para o Greenwich Village". De volta ao país, Raul Seixas teria uma carreira tão brilhante (sem ironias, por favor) quanto catastrófica, do ponto de vista pessoal. Já Paulo Coelho nunca mais voltou. Hoje é um dos escritores que mais vendem no mundo, no entanto, não aplica um centavo no Brasil. Seu único imóvel, onde fica hospedado quando vem rever amigos e parentes, é o apartamento que herdou dos pais, em Copacabana. Toda a sua fortuna está aplicada na França, onde mora num castelo.







TREM DO PANTANAL
Almir Sater e Paulo Simões


O Trem do Pantanal ia de Bauru (SP) até Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Numa certa época, quando não existia estrada rodoviária, era a única ligação entre o litoral brasileiro e a cidade de Corumbá, isolada pelo Pantanal e na fronteira com a Bolívia. Foi também numa certa época alternativa aventureira para a juventude brasileira, sufocada pela ditadura militar.
A história deste trem já foi contada em teses e trabalhos acadêmicos. Ninguém ainda a fez do ponto de vista HIPPIE.
Que tal? Parece boa ideia?




STAIRWAY TO HEAVEN (ESCADA PARA O CÉU)
Led Zeppelin


Em 1971 foi lançada a canção que se tornaria o símbolo de uma época. Da aventura hippie havia sobrado a overdose que matou Jimmy Hendrix e Janis Joplin um ano antes. John Lennon havia decretado que “o sonho acabou” e os velhos militantes anti guerras tentavam curar a depressão. Uns pelas drogas, outros pelas religiões e ainda outros pelo “deus” mercado, a nova onda que chegava, agora chamada Yuppie. A Guerra do Vietnam duraria ainda mais três longos anos, enquanto as ditaduras do cone sul, incluindo a brasileira,  não deixava espaço para nada que fosse minimamente criativo e independente. A censura era prévia e total, levando voluntariamente (ou compulsoriamente) ao exílio os nossos melhores artistas. Diante do cenário, sobrava para a juventude a alternativa de chacoalhar e gozar, afinal, para isso os negões do Mississipi criaram o Rock and Roll. 

No entanto, antes de chegar ao clímax, a interpretação começa de modo intimista, um solado de violão/guitarra acompanhado por flautas de madeira ou órgão eletrônico. O cantor Robert Plant vocaliza suavemente os primeiros versos. O contra baixo só vai entrar junto com a bateria na metade da longa canção. As guitarras, que começaram suaves agora vão crescendo, alternando diferentes compassos. Até que entra o solo final de Jimmy Page, certamente um dos mais brilhantes momentos do rock and roll de todos os tempos.   







MY BACK PAGES ("No tempo que eu era velho")
Bob Dylan 




Bob Dylan é o pseudônimo de Robert Zimmermann, um judeu nascido num kibutz localizado na fronteira com o Canadá. Muito cedo fugiu dali e foi correr a América, de carona, de trem, à pé, refazendo as trilhas dos velhos poetas cantadores de estradas, uma tradição norte americana de longa data. Sua poesia é de uma textura incomparável, enquanto a música caiu como uma bomba sobre os tradicionalistas da velha guarda country music.



Nos anos 60, escreveu talvez os mais belos poemas sobre ser jovem, rebelde e disposto a mudar o mundo. Tentaram colocá-lo como o líder do movimento hippie. Ele rejeitou o papel, assim como também rejeitou a missão política de assumir a representação da luta pelos direitos civis.



A melhor interpretação de suas canções, mais ao gosto do público, era feita pelo lendário grupo The Byrds.











quinta-feira, 5 de novembro de 2015

JOÃO SANTANA, o marqueteiro que Lula mandou para Cristina Kirschner

Propaganda do candidato Mauricio Macri
comemora adesão do terceiro colocado no primeiro turno. 


MEMÓRIA HIPPIE

João Santana é atualmente o marqueteiro político mais bem sucedido do Brasil, embora viva praticamente clandestino com a mulher num amplo apartamento de classe A, situado na região dos Jardins, próximo a Avenida Paulista, em São Paulo. Já ganhou oito eleições presidenciais pelo mundo, incluindo as três últimas realizadas no Brasil. Até a passagem do milênio, era apenas mais um poeta e músico baiano, meio hippie, meio maluco, ligado com o movimento de contra cultura em Salvador. Fez parte do antológico grupo Bendegó e participou da gravação da canção "Canto do Povo de um Lugar", no álbum "Jóia", de Caetano Veloso, em 1975Cansou, como ele mesmo diz. Pra gente ver como o mundo dá voltas... e perdemos um promissor artista da "Era de Aquarius".




  Jóia, "Canto do povo de um lugar",  
1975, Grupo Bendegó e Caetano Veloso

Com o codinome Patinhas, 
João Santana é co-autor desta canção 
aqui interpretada pela bahiana Diana Pequeno

João Santana entrou pra valer no mundo do consumo, inicialmente como publicitário comum, em seguida, vendo o sucesso de outros colegas como Nizan Guanaes e Duda Mendonça, enveredou pelo campo do marketing político. Depois de descansar do sufoco que foi a reeleição de Dilma, deu uma longa entrevista para o livro lançado no início deste ano , denominado “João Santana, um marqueteiro no poder”.  Nesta obra, ele fornece gratuitamente dicas para quem quer se aventurar  no universo do marketing eleitoral. “Perde quem não sabe atacar”, é sua primeira recomendação, ao considerar a campanha do candidato Aécio Neves, seu concorrente em 2014, como uma das “mais medíocres já feitas no Brasil”. 

OPERAÇÃO MARINA

Um ponto importante do livro é como explica o que chamou de “Operação Marina”. Lembra que “ela corria leve e solta, inatingível”. De fato, depois que Marina assumiu a cabeça de chapa após o acidente aéreo do titular Eduardo Campos, disparou nas pesquisas, em parte graças a sua pregação que misturava desenvolvimento ecologicamente sustentável e reformas na economia, além de um passado pessoal impecável.  João Santana conta que chamou Lula, Dilma e o coordenador Aloísio Mercadante e explicou-lhes a necessidade de “antecipar o segundo turno” e partir com tudo pra cima de Marina. Obteve carta branca da cúpula petista. Dias depois, a campanha de Dilma começou a fazer sinistras profecias, caso Marina vencesse. A primeira praga era que iria faltar comida na mesa dos pobres. Em seguida, que o futuro ministro da economia de Marina era da turma neo liberal e faria a economia voltar a um tempo de “miséria”, e, finalmente, que o governo de Marina retiraria todas as “conquistas” dos trabalhadores. Nas mídias sociais e no boca a boca da Militância, carimbava Marina de “traidora”, por que havia abandonado o PT. O efeito foi devastador e Marina despencou, ficando fora do segundo turno.

João Santana refuta todas as acusações de que teria passado do ponto. “Se houve exagero, foi de qualidade fílmica e criativa”, reage às críticas de que teria sido anti ético, já aproveitando para um auto elogio, como costuma fazer ao avaliar o próprio trabalho. Tampouco entra no mérito do conteúdo de suas denúncias, preocupado que está apenas com a questão da técnica: "Por que não responderam à altura, não provaram que era mentira?". A questão ética também parece não ser problema para alguns colegas de profissão do marqueteiro,  ouvidos pela reportagem no lançamento do livro: É um exuberante exemplo de pensamento estratégico bem definido",  comenta um deles, enquanto parece tornar-se consenso que "daqui pra frente é preciso saber mais atacar do que defender, mesmo sendo governo".
  

DESAFIO E DERROTA NA ARGENTINA

É nessa mudança de paradigma que João Santana confiou até aqui. Porém, foi derrotado em seu último e mais importante desafio. Levar o candidato de Cristina Kirchner, Daniel Scioli, à vitória na Argentina. A meta de vencer a eleição já no primeiro turno falhou, complementando o fracasso de uma jogada de risco empreendida por João Santana, qual seja, colocar Lula como protagonista da eleição, aproveitando-se de sua proximidade com os Kirchner e os bolivarianos. Lula entrou firme na campanha da televisão e nos palanques. Cristina chegou a insinuar que, com o apoio de Lula e tendo Scioli no poder, a Argentina passará a integrar o grupo dos BRICS, que então se chamará BRICSA.  É preciso reconhecer que eles não pensam pequeno! Lula, por seu lado, assumiu completamente a defesa do continuísmo, dizendo que os Kirchner mudaram a história da Argentina e, caso Scioli perdesse para o candidato da oposição, o país iria retroceder e os trabalhadores perderiam as "conquistas sociais" da última década. Com isso, tentava repetir a tática utilizada no Brasil, o terrorismo eleitoral, aquilo que João Santana chama de "saber atacar". 

Vídeo da campanha de Scioli tenta comparar 
o oposicionista Macri com ministro da ditadura militar

"Você se imagina sem teto? Se imagina com fome? Imagina realmente voltar para trás?”, gritavam na televisão os reclames do candidato governista. A campanha tentava chocar também a classe média, ameaçando que a eventual vitória de Maurício Macri no segundo turno, iria desestabilizar a geo política sul americana, o que não aconteceria caso Scioli vencesse, porque ele estaria próximo a Dilma, Lula, Maduro, Evo Morales, enfim, os chamados bolivarianos.  Por seu lado, Mauricio Macri apelava para a auto estima dos argentinos, acusando a campanha governista de provocar “uma intromissão estrangeira, absurda e indevida em nossos assuntos internos”, referindo-se à presença de Lula. Pelo sim, pelo não, João Santana retirou o barbudo da campanha no segundo turno. Nos círculos internos, especula-se que Lula mais tirou votos de Scioli do que acrescentou, devido justamente a esse sentimento de intromissão estrangeira. Mas, não adiantou. Nem para o candidato de Cristina, nem para João Santana. O marqueteiro foi dispensado de comandar a reta final da campanha, afinal vencida por Macri. 

Mauricio Macri virou nas pesquisas e caminhou em largos passos a caminho da vitória. Sem marqueteiro internacional, diga-se de passagem. 



Vídeo da campanha de Dilma.
Qualquer coincidência, não é mera semelhança.